O Dirigente das Trevas

Esta é uma figura freqüente em trabalhos de desobsessão. Comparecer para observar, estudar as pessoas, sondar o doutrinador, sentir mais de perto os métodos de ação do grupo, a fim de poder tomar suas “providências”. Foi geralmente um encarnado poderoso, que ocupou posições de mando. Acostumado ao exercício da autoridade incontestada, é arrogante, frio, calculista, inteligente, experiente e violento. Não dispõe de paciência para o diálogo, pois está habituado apenas a expedir ordens e não a debater problemas, ainda mais com seres que considera inferiores e ignorantes, como os pobres componentes de um grupo de desobsessão. Situa-se num plano de olímpica superioridade e nada vem pedir; vem exigir, ordenar, ameaçar, mandar, intimidar.

Tais dirigentes são ágeis de raciocínio, envolventes, inescrupu­losos, pois o poder de que desfrutam não pode escorar-se na do­çura, na tolerância, na humildade, e sim na agressividade, na des­confiança, no ódio. Enquanto odeiam e infligem dores aos outros, estão esquecidos das próprias angústias, como se a contemplação do sofrimento alheio provocasse neles generalizada insensibilização.

Evitam descer do pedestal em que se colocam para revelar-nos seus problemas pessoais, mesmo porque, consciente ou inconscien­temente, temem tais revelações, que personalizam os problemas que enfrentam e os colocam na “perigosa” faixa de sintonia emocional que abre as portas de acesso à intimidade do ser.

Não são executores, gostam de deixar bem claro, são chefes. Estao ali somente para colher elementos para suas decisões; a exe­cução ficará sempre a cargo de seus asseclas. Comparecem cerca­dos de toda a pompa, envolvidos em imponentes “vestimentas”, portando símbolos, anéis, indicadores, enfim, de “elevada” condição. Estão rodeados de servidores, acólitos, guardas, escravos, assessores, às vezes “armados”, “montados” em “animais” ou transportados sob “pálios”, como figuras de grandes sacerdotes e imperadores.

Um deles me disse, certa vez, que eu não o estava tratando com o devido respeito — o que não era verdadeiro — porque achava impertinentes minhas perguntas e comentários. Para me dar uma idéia da sua grandeza, informou-me que, quando se des­locava, iam à frente dele áulicos, tocando campainhas portáteis, para que todos abrissem alas e soubessem quem vinha.

Pobre irmão desorientado! Num irresistível processo de regres­são de memória, invisível aos nossos olhos, mas de tremendo rea­lismo para ele, contemplou, com horror, sua antiga condição: par­ticipara do doloroso drama da Crucificação do Cristo. O impacto desta revelação, ou seja, desta lembrança, que emergiu, incontro­lável, dos registros indeléveis do seu perispírito, deixaram-no em estado de choque e desespero, pois vinha nos afirmando, desde a primeira manifestação, que era um dos trabalhadores do Cristo e não desejava senão restabelecer o poderio da “sua” Igreja.

O Planejador

Este é frio, impessoal, inteligente, culto. Maneja muito bem o sofisma, em excelente dialético, pensador sutil e aproveita-se de qualquer descuido ou palavra infeliz do doutrinador para procurar confundi-lo. Mostra-se amável, aparentemente tranqüilo e sem ódios. Não se envolve diretamente com os métodos de trabalho das organizações trevosas, ou seja, não expede ordens, nem as executa; limita-se a estudar a problemática do caso e traçar os planos com extrema habilidade. Os planejadores são elementos altamente credenciados e respeitados na comunidade do crime invisível.

Relato de casos

Apresentou-se mansamente. Nada de gritos, de murros ou de violências. Sorria, até. Era um sacerdote, dizia-se muito importante e foi logo declarando que não era dos que executam, pois em sua organização o trabalho era bem distribuído. Aliás, informou, pertencia a outro setor de atividade, mas havia sido convidado — e gentilmente acedeu, por certo — para dar “parecer” sobre o caso de que estávamos cuidando, um complicado problema de obsessão. Consultara a lista de “baixas” que a organização solicitante havia sofrido, entendendo-se por “baixa”, naturalmente, aqueles que se deixaram converter à doutrina do amor, através da reeducação moral de que nos fala Kardec. Sente-se, evidentemente, muito envaidecido de sua brilhante inteligência e do poder e satisfação que isso lhe dá. Sua meta: restabelecer o prestígio da Igreja, muito abalado nestes últimos tempos. Acha que foi um mal sufocar o pensamento e não permitir que a razão imperasse na Igreja, que hoje estaria ainda dominando os homens. A certa altura, propõe um acordo entre dois lideres: ele e eu. Digo-lhe, com toda honestidade, que não sou líder e não tenho condições de negociar com ele; que procure meus superiores.

Com o passar das semanas, ele verifica que o problema é mais complexo do que esperava, e se apresta a abandonar o caso, com o qual não pretende envolver-se, já que sua tarefa é noutra organização. Dar-nos-á uma trégua. Tem um momento de honesta candura, ou realismo, como queiram: acha-se um cínico, pois sempre desprezou, mesmo “em vida”, aqueles que, em elevadas posições hierárquicas, consultavam a ele, simples mortal, valendo-se de sua brilhante inteligência. É evidente, porém, que sente enorme satisfação ao recordar que, da sua “humilde” posição, manobrava os grandes, que lhe pediam conselhos e sugestões, porque já àquele tempo era um hábil articulador.

A conversão deste companheiro representou uma perda irreparável para as hostes das sombras, porque os impetuosos e agressivos chefes, e os executores teleguiados, sentem-se sem condições de estudar meticulosamente e traçar friamente um plano de trabalho que se desdobre como vasta e complexa operação de um xadrez psicológico. É preciso prever reações, estudar personalidades, propor concessões e arquitetar alternativas e opções, em caso de alguma falha ou mudança de condições básicas. Nada pode ser deixado ao acaso, à improvisação, ao impulso. Por isso, os planejadores gozam de enorme prestígio e respeito nas organizações trevosas.

Pelas reações de irmãos, também desequilibrados, que se apresentaram posteriormente ao nosso grupo, para tratamento, soube­mos da perda irreparável que representou, para as hostes das sombras, o despertamento desse companheiro. Seus comparsas compareciam dispostos a tudo para resgatá-lo, pois julgavam-no nosso prisioneiro. É preciso compreender bem tais reações. Os irmãos desorientados empenham-se em verdadeiras campanhas belicosas, nas quais tudo vale e tudo é permitido, desde que os fins sejam alcançados. Formam suas estruturas organizacionais segundo as afinidades, por certo, mas, acima de tudo, segundo os interesses que tenham em comum. Para alcançarem os objetivos que têm em mira, organizam verdadeiro estado-maior de lideres brilhantes, experimentados e audaciosos. Toda campanha é estudada, planejada e executada com precisão militar e dentro de rigoroso regime disciplinar, onde não se admite o fracasso. Quem falhar perde a proteção de que desfruta, por achar-se ligado à organização poderosa, que domina pelo terror impiedoso, destemido, agressivo, implacável. Eles sabem muito bem que, ao desligarem-se da organização, estarão sozinhos diante de seus próprios problemas pessoais.

Nessas estruturas rígidas, o planejador exerce função importantíssima, porque é dos poucos, ali, que conservam a cabeça fria para conceber os planos estratégicos indispensáveis. Seus companheiros de direção costumam ser impetuosos homens de ação, que se entregam facilmente ao impulso desorientado de partir para a ação pessoal, isolada, se não tiverem quem os contenha dentro de um inteligente planejamento global, que proteja não apenas os interesses de cada um dos componentes, isoladamente, mas também a segurança da organização. O planejador é o poder moderador, dotado de habilidade bastante para demonstrar, e provar aos “cabeças-quentes”, que o interesse coletivo precisa sobrepor-se ao individual, por mais forte que seja este. É preciso que cada componente da sinistra máfia espiritual compreenda que os casos pessoais de cada um — vinganças, perseguições, conquistas de posições — passam a constituir objeto de cogitação coletiva, e, como tal, têm que esperar a vez e a oportunidade, submetendo-se à mesma estratégia: estudo, planejamento e ação, tudo a tempo e hora. Nada de ações isoladas, atabalhoadas, que desperdiçam esforços e põem em risco a segurança da comunidade. Tudo se fará no tempo devido, e todos têm direito à utilização dos recursos da organização: seus técnicos, seus instrumentos, seus “soldados” e trabalhadores de toda a natureza. No interesse de todos, portanto, a coisa tem que funcionar com muita precisão e firmeza. O planejador é, pois, figura importantíssima na ordenação dessas tarefas maquiavélicas. Sua perda acarreta uma desorientação geral. É difícil, senão impossível, para os companheiros que permanecem na organização das sombras, admitir que alguém tão lúcido e brilhante se tenha deixado convencer por um doutrinador encarnado.

Como não conseguem admitir isso, somente podem concluir pela alternativa mais viável: o companheiro foi seqüestrado, violentado em sua vontade e levado prisioneiro para alguma perdida masmorra. É preciso reunir forças e desencadear uma ação fulminante para resgatá-lo. Por isso, logo após a perda de um elemento importante — planejador ou executor —, fatalmente comparece ao grupo um truculento representante das trevas, para levá-lo “de qualquer maneira”. É hora, então, da ameaça, dos gritos, dos murros, ou então, dos conchavos, das ofertas de trégua. A essa altura, porém, já estão agindo à base do impulso emocional, que nunca foi bom conselheiro, ainda mais em situações de crise. Équando mais precisam de um competente planejador. E o desespero de não tê-lo leva ao desvario, que muitas vezes os deixa completamente desarvorados. Daí a importância que os trabalhadores do bem conferem aos planejadores. Daí o prestígio e o respeito que esses brilhantes estrategistas gozam nas comunidades trevosas. Os líderes militares são bons na ação, mas quase nunca dispõem de condições para estudar meticulosamente e traçar friamente um plano de trabalho, que se desdobre como vasta e complexa operação de um xadrez psicológico. Não estão lidando mais com dados concretos, como no tempo em que exerciam tais funções na Terra. Não basta preparar soldados e equipamentos, estudar o terreno, comprar armamentos e entrar em ação. A tarefa é muito mais sutil, porque envolve inúmeros fatores imponderáveis, que subitamente emergem da imprevisível condição humana. É preciso prever tais reações, estudar personalidades, propor concessões e arquitetar alternativas e opções, na eventualidade de alguma falha ou mudança das condições básicas inicialmente articuladas. Nada pode ser deixado ao acaso, à improvisação, ao impulso.

Há pouco, falava um desses líderes das trevas sobre a sofisticação da sua aparelhagem. Andaram gravando nossas reuniões em “video tape” — a expressão é dele mesmo — para estudar-nos. Tinham nossas “fichas” completas, minuciosamente levantadas, bem como gravações e relatórios a nosso respeito, sendo esse material todo colhido na indormida vigilância que exercem sobre nós. Depois de tudo documentado, estudam-nos em grupos de trabalho, cabendo, então, aos planejadores elaborar a programação da “campanha”. Mesmo enquanto conversam conosco, no decorrer da sessão mediúnica, acham-se ligados aos seus redutos, por fios e aparelhagem de transmissão, com o propósito de se manterem firmes, apoiados pelos companheiros que lá ficam, para que não sejam arrastados pela “fraqueza” da conversão ao bem. Esquecem-se de que, por aqueles mesmos dispositivos, a conversa do doutrinador também é transmitida e produz lá, naqueles redutos, certos impactos, num ou noutro coração mais predisposto ao apelo do amor fraterno.

Um desses sutis planejadores nos causou impressão profunda. Não viera especificamente para debater conosco, mas para tentar recuperar um Espírito que havíamos conseguido atrair e convencer de seus enganos. Ao incorporar-se no médium, demonstra indisfarçável embaraço por encontrar-se ali. Hesita e negaceia, parecendo estar realmente desarmado e perplexo. Aos poucos, interrogado com prudência paciente, vai revelando sua história.

Fora realmente apanhado desprevenido, pois não sabia que o grupo era aquele e, se o soubesse, não teria vindo. É estranho que ignorasse isto…) Conhece o nosso mentor e, ao vê-lo, tentou recuar e voltar sobre seus passos, mas já era tarde. Identifica, num membro encarnado do grupo, uma pessoa que teria conhecido na França, no século passado. É portanto, contemporâneo de Kardec e não esconde que conhece a Doutrina Espírita, até mais do que nós, segundo informa, sem falsa modéstia. Declara-se conselheiro e planejador da organização à qual se acha filiado. Está convicto de que o Espiritismo precisa de uma “revisão” atualizadora e ele é um dos que colaborou no preparo de certa matriz (palavra sua) que dará origem a uma forma “moderna” de Espiritismo. Essa matriz era sustentada pelas emanações mentais de alguns companheiros encarnados, atuantes no movimento e aos quais foi prometida uma fatia de poder.

Está perfeitamente consciente de suas responsabilidades e não deseja recuar do pacto feito com seus superiores, que prevê, para ele, uma substancial parcela de poder e proteção para uma filha que estaria encarnada e muito assediada por Espíritos trevosos. Encaixo, a essa altura, um comentário, dizendo-lhe que nenhum pacto a protegerá dos seus compromissos cármicos, com o que ele parece concordar com o seu silêncio. Afinal, admite que não fez acordo com a treva: ele é a própria treva, e continua a sentir-se embaraçado diante de nós.

Depois de uma longa conversa, meramente informativa, em que ele vai revelando sua história, parece tomar uma decisão mais drástica e começa a falar em altos brados, a dar com as mãos na mesa, mas sinto nele falta de convicção.

Deixo-o falar, para vazar a sua cólera, a sua frustração e o seu temor, até que ele se acalma um pouco e começa a dar-me conselhos e fazer algumas confidências. Está em crise. Lembra-se de passadas encarnações e da constante presença do Cristo em suas vidas, mas também das inúmeras vezes em que, a seu ver, traiu o Mestre. Gostaria de voltar a ser um humilde galileu. Por fim, agarra as nossas mãos, chama-nos de amigos e nos adverte — agora com total sinceridade — dos riscos da nossa tarefa, e parte, em pranto, orando ao Cristo.

Também a sua perda desencadeou sobre o grupo um processo de agressões violentas e passionais. Ë difícil encontrar um bom planejador para repor uma “baixa” importante como essa…

Os Juristas

Muitas vezes nos encontramos com esses trabalhadores das sombras, tão compenetrados de suas tarefas como quaisquer outros. São os terríveis juristas do Espaço.

Autoritários, seguros de si, exoneram-se facilmente de qualquer culpa porque, segundo informam ao doutrinador, cingem-se aos autos do processo. Na sua opinião, qualquer juiz terreno, medianamente instruído, proferiria a mesma sentença diante daqueles fatos. Todo o formalismo processualístico ali está: as denúncias, os depoimentos, as audiências, os pareceres, os laudos, as perícias, os despachos e, por fim, a sentença — invariavelmente condenatória. E até as revisões, e os apelos, quando previstos nos “códigos” pelos quais se orientam (ou melhor, se desorientam).”

São também impessoais e frios aplicadores das “leis”.

Um desses juizes deu-me a honra de trazer, para argumentar comigo, os autos do processo. Abriu sobre a mesa o caderno, invisível a mim, e começou a citar a lista de crimes que o acusado havia cometido, desde o desencaminhamento de jovens inexperien­tes, até assassinatos. Só depois, pobre irmão, foi descobrir que estava lendo os autos de seu próprio processo! Trouxera consigo um servidor da sua equipe apenas para “carregar” os autos, coisa indigna de sua elevada condição de magistrado. Quando pediu ao contínuo que lhe passasse os autos, este lhe deu a documentação errada. .. O engano foi, aliás, seu mesmo, porque o bedel lhe dera primeiro um dos processos, e ele, em tom áspero e imperioso:

— Não é este, é o outro!

O “outro” era o dele!

Já me trouxeram também os autos do processo de minha “heresia”, como também autos já arquivados, com sentença proferida, em caso que, segundo este jurista invisível, eu havia apelado.

O Executor

Sente-se também totalmente desligado da responsabilidade, quanto às atrocidades que pratica, pois não é o mandante; apenas executa ordens. Usualmente, nada tem de pessoal contra suas vítimas inermes. Agasalham-se na crueldade agressiva e fria, sem temores, sem remorsos, sem dramas de consciência.

Quantos deles encontramos nos trabalhos de desobsessão! São remunerados das maneiras mais engenhosas e diversas, as que mais se ajustam à sua psicologia, aos seus vícios e às suas deformações.

Já vimos o exemplo do sacristão que era pago com suculentas refeições e vinhos deliciosos. Há os que são compensados com prazeres mais vis. Outros são estimulados a atos de particular “bravura”, com vistosas condecorações. Um deles me exibia, com orgulho e frieza, uma preciosa condecoração por um gesto de enorme dedicação à causa de seus mandantes: empenhara-se em castigar sua própria irmã!

Outro, desses companheiros desarvorados, deixou-nos uma das mais comoventes lições, escrita, a princípio, com as sombrias cores do rancor, e depois, com as luminosas tintas do amor e da emoção.

Empenhara-se num processo tenebroso e complexo, de obsessões violentas, a serviço de um grupo que dispunha de vasto plano de atividade. Ao manifestar-se, mal conseguia conter o seu ódio e a sua irritação. Revela sua elevada hierarquia, ridiculariza, ameaça e diz-se um dos trabalhadores do Cristo. Não se teria dignado comparecer diante de nós, se não nos tivéssemos metido em coisas que não eram de nossa conta. Conhece-me de longa data: sempre fui um herético impenitente, metido a reformista. Seus “soldados” estão lá fora, à sua espera. Quando, sustentados por luminosos trabalhadores espirituais, começamos a conseguir dele alguma reação positiva, parece entrar em pânico e não consegue ocultar certo temor, ele que sempre foi destemido homem de ação.

É justamente isso que ele não entende: descobrira que, mesmo sem o saber, estávamos já servindo, com todo o nosso afeto e dedicação, a um Espírito muito querido ao seu coração, que em antiga encarnação fora seu filho e que nunca mais esquecera. Não podia compreender como estávamos ajudando o “menino”, a troco de nada, sem exigir coisa alguma, enquanto ele tudo fazia para perseguir-nos. Aquilo era demais para a sua compreensão. Havia mais, porém. Descobrira que os mais terríveis obsessores de seu filho eram precisamente os companheiros da sua própria organização! E, no entanto, treinara “soldados” para nos dar com­bate sem tréguas, a nós, que tanto nos esforçávamos por ajudar o filho… Era, de fato, incompreensível…

Passadas algumas semanas, obteve permissão para transmitir-nos uma mensagem de gratidão, de amor, de arrependimento. Consideramo-la uma das coisas mais lindas e mais emocionantes que tivemos, ao longo de muitos anos de prática mediúnica. Quando me lembro disso, ainda me parece ouvir sua voz pausada, embargada, sofrida, a chorar o tempo perdido, a ausência do filho amado, que não lhe era possível nem visitar, mas que deixava aos nossos cuidados. Estava de partida para uma nova encarnação, que se prenunciava de muitas dores e renúncias, como ele precisava, para o reajuste. Sustentava-o a esperança de um reencontro alhures, no tempo e no espaço, um dia… um dia…

O Religioso

Apresentam-se, quase sempre, como zelosos trabalhadores do Cristo, empenhados na defesa da “sua” Igreja. São argutos, inteligentes, agressivos, violentos, orgulhosos, impiedosos e arrogantes. Parece terem freqüentado a mesma escola no Além, pois costumam trazer os mesmos argumentos, a mesma teologia deformada, com a qual justificam seus impulsos e sua tática. Têm os seus temas prediletos, como a cena da expulsão dos vendilhões do templo, que invocam como exemplo de que a violência é, às vezes, necessária e justificável, esquecendo-se, deliberadamente, das motivações daquele gesto: a vergonhosa comercialização das coisas sagradas e a indústria do sacrifício de pobres animais inocentes. O gesto não é gratuito, nem fica sem explicações.

O grande problema desses queridos companheiros desarvora­dos é o poder. Quase sempre exerceram, nas organizações religiosas a que se filiaram, vida após vida, posições de mando e destaque. Estão acostumados a dominar os outros, não a si mesmos, pois tudo se permitem, desde que os objetivos que escolheram sejam alcançados. Constituem equipes imensas, que se revezam na carne e no mundo espiritual, mantendo estreito intercâmbio, porque também se revezam no poder, aqui e lá, e, por isso, suas organizações sinistras e implacáveis parecem eternizar-se no comando de vastas massas humanas, encarnadas e desencarnadas.

O intercâmbio, à noite, quando se acham parcialmente libertos os encarnados, é intenso. Realizam-se reuniões, para debate, estudo e planejamento. André Luiz nos dá uma pequena amostra dessa atividade em “Libertação”, no capítulo “Observações e novidades”.

A extensão do intercâmbio entre encarnados e desencarnados. A determinadas horas da noite, três quartas partes da população de cada um dos hemisférios da Crosta Terrestre se acham nas zonas de contacto conosco e a maior percentagem desses semilibertos do corpo, pela influência natural do sono, permanecem detidos nos círculos de baixa vibração qual este em que nos movimentamos provisoriamente. Por aqui, muitas vezes se forjam dolorosos dramas que se desenrolam nos campos da carne. Grandes crimes têm nestes sítios as respectivas nascentes e, não fosse o trabalho ativo e constante dos Espíritos protetores que se desvelam pelos homens no labor sacrificial da caridade oculta e da educação perseverante, sob a égide do Cristo, acontecimentos mais trágicos estarreceriam as criaturas.”

Três quartos da população encarnada na Terra, ou seja, três pessoas em cada quatro, isto é, 75 por cento! André não fala especificamente de reuniões promovidas por religiosos, mas estas são ativas, freqüentes e tenebrosas. Comparecem, investidos de enorme autoridade, aqueles que a conquistaram pela ardilosa sagacidade, pela prepotência e total desinteresse pelos aspectos éticos das questões envolvidas. Ai daquele que se intromete em seus afazeres e tenta impedir a realização de seus planos criminosos! precisa estar muito bem preparado, vigilante, guardado na prece e assistido por Espíritos do mais elevado teor vibratório.

Uma jovem desencarnada, com ingenuidade, que vivia alegremente, na irresponsabilidade da sua inconsciência. Ligara-se a um ser encarnado, a quem estávamos interessados em ajudar, aliás, sem que ele o soubesse. Comparecia uma vez por semana à presença do nosso amigo encarnado e o induzia aos desatinos dos sentidos desgovernados, participando, certamente, dessas orgias. Era “remunerada” com “roupas” luxuosas e bonitas e, evidentemente, gostava da sua tarefa. Totalmente teleguiada, era simples instrumento sob o poder implacável de seus senhores.

Agindo sob hipnose, atuava precisamente naquilo que constituía o principal problema do companheiro encarnado: sexo. Encontrava-se muito bem preparada pelos seus ínstrutores. Quando eu lhe disse que era mero instrumento em mãos alheias, ela respondeu que não, pois gozava de inteira liberdade. Não é maldosa, é irresponsável e perturbada. Conta que “ainda ontem, na missa, Monsenhor falou que era preciso evitar o aguilhão”. Sabem, assim, que se sairem dali, por fuga ou fraqueza, encontrarão o espectro temido da dor, as lágrimas, o desespero. Enquanto estão ali, têm diversões, prazeres, vestidos bonitos e até mesmo os “tranqüilizan­tes” psicológicos para a consciência atormentada, porque ex-sacerdotes fanatizados e duros ministram-lhes “sacramentos”, levam-nas às missas que celebram e absolvem-nas dos pecados que porventura tenham cometido. É, sem dúvida, um plano maquiavélico, com o qual ex-“ministros de Deus” conseguem manipular, à vontade, pobres inocentes úteis que lhes caem sob o poder. A despeito de seus desvairamentos, sinto-a interiormente ingénua, quase pura. Poderia ser minha filha, digo-lhe, e ela responde que, se eu fosse seu pai, ela não teria coragem de vir me ver. Aproveito o ensejo para dizer-lhe que, nesse caso, não anda fazendo boas coisas, como alega, o que parece impressioná-la. Nesse ponto, ela me confessa que veio escondida. “Eles” não podem saber…

Na sessão seguinte compareceu um sacerdote. Tinha forte sotaque alemão e era o “guia espiritual” do nosso companheiro encarnado, então sob tratamento em nosso grupo. Viera em busca da filha que desaparecera, precisamente a moça da semana anterior. Pobre irmão desgovernado! Ignorava que ela estava sendo vergonhosamente explorada pela mesma “organização” a que ele servia!

Dizia Paulo que tudo nos é lícito, mas nem tudo nos convém; para estes irmãos religiosos transviados, tudo convém, seja lícito ou não, desde que os ajude a alcançar seus objetivos. E assim, misturam os conceitos de uma deformada teologia com os ritos da magia negra e com as técnicas da hipnose e da magnetização, realizando verdadeiras lavagens cerebrais, provocando pavorosas desfigurações perispirituais, desencadeando processos obsessivos penosos.

Uma das infelizes criaturas a que atendemos certa vez, nos contou a seguinte história: numa existência anterior, fora traída por uma mulher. Localizando esta agora, em outra vida — não ficamos sabendo se casada com o seu antigo marido ,atormentava-a livremente, com rancor e consciência tranqüila, porque um sacerdote, seu amigo, a perdoava e a estimulava a prosseguir na sua deplorável tarefa.

Há, também, entre eles, os ex-inquisidores. Ainda rancorosos, mais fanáticos do que nunca, mantêm os mesmos processos de tortura e de encarceramento, em medonhas masmorras infectas. Quantos companheiros não socorremos, apavorados, roidos pelos ratos, enceguecidos pelas trevas, ainda sentindo as sensações de estrangulamento, carregando correntes imaginárias, com os olhos ou a língua arrancados, mortos de fome, tuberculosos, desmembrados, alienados, atoleimados, muitos sem condições sequer de chorar…

Todo esse arsenal alucinante de opressão e miséria tem como suporte uma teologia que lhes é própria. Seus artífices não ignoram as verdades contidas na Doutrina Espírita, nem têm como negá-la, diante do que sabem, mas justificam suas atrocidades com frases estereotipadas, sempre as mesmas, no fundo, embora variadas na forma. Sim, reconhecem, é verdadeira a doutrina da reencarnação, por exemplo. A Igreja a admite há muito tempo, dizem, mas conserva tais conhecimentos limitados a uma elite pensante, pois essas informações não devem ser transmitidas à massa popular. Um dia, quando conseguirem restaurar todo o poderio da Igreja, esses conhecimentos serão liberados e o Evangelho do Cristo será novamente pregado tal como é, ou seja, como eles entendem que seria. Um deles me declarou, certa vez, que existe, pronta, uma nova versão do Evangelho, cuidadosamente preparada, para ser lançada no momento oportuno. Esse momento é sempre o mesmo: quando restabelecerem novamente o domínio total sobre a Humanidade, tal como no passado, em que era honra concedida aos reis beijarem os pés dos Papas.

É claro, pois, que o alvo de preferência de suas investidas é o Espiritismo, que muitos combateram “em vida” e que prosseguem combatendo, com redobrado ardor, quando se passam para o mundo póstumo. Os grupos espíritas de trabalho mediúnico interferem direta ou indiretamente em seus planos. Muitas vezes, tais grupos se envolvem em autênticos vespeiros, ao tentarem ajudar companheiros encarnados ou desencarnados, sob o guante de terríveis obsessões. É que, em não poucas oportunidades, os obsidiados são peças importantes no complexo jogo de xadrez das sombras. Verdadeiras batalhas travam-se em torno de determinadas figuras humanas, e os grupos que intentam salvá-las das suas aflições precisam estar realmente bem preparados, ou serão impiedosamente esmagados pela agressividade dos poderosos dirigentes das trevas.

Por outro lado, o movimento espírita moderno, especialmente no Brasil, conta com enorme quantidade de antigos sacerdotes, arrependidos de seus desatinos passados, procurando, em nova encarnação, lavar as manchas de crimes hediondos que cometeram. Para os antigos comparsas, no entanto, são trânsfugas desprezíveis, que cumpre esmagar, apóstatas que têm de destruir, heréticos que precisam calar, a todo custo.

Quantos me têm interpelado, com as mais terríveis invectivas! Um deles, conhecendo meu passado, tanto na Igreja Católica como na Protestante, me disse, com ódio e desprezo:

— Protestante e espírita, dois porcos num só…

Outro, fanático e não mau, buscava-me há mais de quatro séculos, pois da última vez em que fomos companheiros, éramos sacerdotes católicos, antes ainda da Reforma Protestante.

Outros se empenham em “recuperar-nos”, seja com ameaças, seja com promessas sedutoras ou barganhas inaceitáveis.

A esta altura, o leitor, estaria perguntando se não há sacerdotes de boa índole, no mundo espiritual. Certamente que sim, e, graças a Deus, em grande número; com muito mais freqüência, porém, entre aqueles que foram pequenos e humildes servidores da Igreja, conscientes das grandezas do Evangelho de Jesus. São eles os serenos párocos de aldeia, monges e frades que se dedicaram à caridade e ao serviço ao próximo. São muitos os que rapidamente se adaptam às condições do mundo espiritual, onde não encontram nem o céu de gozos inefáveis, nem o inferno aterrador, nem tampouco o purgatório lendário, mas apenas as condições que criaram para si mesmos. Alguns dos mais destacados membros da hierarquia eclesiástica também vencem, com surpreendente brevidade, o período de perplexidade em que mergulham com a desencarnação.

— “É estupenda a metamorfose que se operou no meu Espírito, desde a visita que vos fiz. Extraordinário fenômeno, capaz de confundir a inteligência mais atilada e a criatura melhor provida de conhecimentos teológicos e profanos. Estupenda, grandiosa, diria mesmo fenomenal, é a obra em que colaborais, vós outros, homens terrenos, malquistos pela sociedade perversa dos vossos dias. Me é dito e considero: eu, servidor da Igreja, elevado à mais alta dignidade eclesiástica, na Terra de Santa Cruz, venho entre vós, criaturas simples, na maioria sem grande preparo intelectual, beber da água da vida que o ensino da Igreja romana nunca pôde proporcionar ao meu espírito sedento. Quando daqui regressei, meus irmãos, o Infinito como que se havia transmudado e novo cenário se me deparou. A corte dos que me acompanhavam, cabisbaixa e encolhida num recanto, demonstrava a sua contrariedade pelos efeitos que a minha visita produzira em meu espírito.”

Fora daqueles que, “em vida”, segundo suas próprias declarações na sessão anterior, “procurara, juntamente com outros dignitários da sua Igreja, meios de conseguir que cessassem as atividades da Federação, na propaganda do Espiritismo, pelo considerar falsa e errônea essa doutrina, prejudicial ao Catolicismo”. Era, agora, socorrido exatamente na organização que tentara fazer calar.

Note-se, também, em sua comunicação, a referência à corte dos que o seguiam e ao desapontamento em que ficaram, ao ver o bravo cardeal render-se espontaneamente àqueles que todos consideravam como adversários, que não mereciam piedade nem consideração.

Muitas são as lições dolorosas que nos ministram os dramas vividos por esses pobres irmãos que insistem em declarar-se trabalhadores do Cristo. Examinando suas tendências, estudando suas atitudes e pronunciamentos, creio que poderíamos identificar duas posições básicas, neles: ambição e fanatismo.. Às vezes, a ambição e o fanatismo parecem coexistir no mesmo Espírito, mas ocorrem, também, separadas. Os ambiciosos desejam o poder, o exercício da autoridade. Não sabem viver sem mandar, sem oprimir, sem impor sua vontade e suas idéias.

Movem-nos ambições desmedidas, sustentadas e impulsionadas pela filosofia da restauração da “verdadeira” Igreja do Cristo. Quantos deles não nos têm confessado sua impaciência e irritação ante a desagregação da autoridade da velha organização eclesiásfica terrena! Não é essa a imagem da Igreja com que sonham. Querem-na forte, poderosa, autoritária, incontestada, ditatorial, como nos tempos idos; não essa aí, que está sempre recuando e entregando-se, como se acuada. No mundo espiritual em que vivem, conservaram os modelos medievais, com todo o seu cortejo de vícios, Só lhes resta reimplantar esses modelos entre os encar­nados, repondo a esclerosada organização terrena no seu antigo “esplendor”.

É certo que, para esses objetivos, encontram apoio nos mais insuspeitados setores da atividade humana, tanto aqui, como no mundo espiritual. Para isto, ligam-se a Outros poderosos do passado, com os quais celebram pactos sinistros de apoio mútuo, para partilharem do vasto bolo do poder, se e quando o reconquistarem. É comum encontrarmos, entre os desencarnados, sacerdotes de elevada hierarquia eclesiástica, perfeitamente entrosados com antigos governantes leigos que se revelaram indiferentes às questões puramente religiosas ou francamente hostis ao movimento cristão, que alguns deles chegaram mesmo a combater tenazmente, quando de suas passagens pela carne. Não importa. Desde que constituam bons parceiros na conquista das posições, as tenebrosas alianças realizam-se.

Quanto aos fanáticos, nem sempre são ambiciosos, no sentido da disputa do domínio político. Estão convencidos de que sua forma de pensar é a Única certa, com exclusão de todas as demais. Combatem o Espiritismo, não tanto porque desejam posições de mando, mas porque o consideram uma odiosa heresia. No fundo, o fanático puro serve de instrumento ao ambicioso, pois este não se interessa pelo pensamento religioso em si, e sim pelo poder que uma teologia deformada e bem manipulada pode proporcionar.

Muitos desses Espíritos repetem incessantemente seus enganos por séculos a fio, buscando sempre os núcleos do poder, quaisquer que sejam as crenças em que se apóiam. Foram hierofantes de decadentes cultos egípcios, por exemplo; repetiram a experiência, como sacerdotes judeus, e voltam a insistir, como prelados católicos, sempre disputando posições de relevo, de onde possam manobrar. Para que essas mudanças tão radicais de posição teológica não os incomode, condicionam-se a um esquecimento das antigas circunstâncias, para não terem que enfrentar conscientemente uma realidade estranha, como a de declararem-se em luta pela restauração da Igreja do Cristo, quando toda a sua atividade e todas as suas verdadeiras convicções são um desmentido formal à doutrina de amor contida nos Evangelhos. Às vezes, despertam para a realidade, ante o impacto traumático de revelações que dormitavam em seus indeléveis registros perispirituais, como aquele imponente “servidor” do Cristo que acabou descobrindo que participara pessoalmente do drama da cruz… Outro ajudou a apedrejar Madalena… Um terceiro lamentava ter queimado uma santa. Seria Joana dArc?

Todos esses sabem muito bem por que fogem às lembranças do passado: é que as recordações arrastam-nos, inapelavelmente, a enfrentar suas próprias contradições íntimas, suas hipocrisias, seus desvios, suas fraquezas. O esquecimento deliberado e auto-induzido é uma fuga, um esconderijo. Enquanto estão ali, acham-se abrigados da dor. Por isso, não estão interessados, especificamente, nesta ou naquela teologia — o que importa é a ação, o poder. No fundo, sabem muito bem que não são trabalhadores do Cristo, mas há tanto tempo se condicionaram a essa atitude, que acabam por se convencer da sua autenticidade. É preciso um impacto mais violento para desalojá-los de suas terríveis auto-ilusões.

O Materialista

Este não constitui problema difícil, no trabalho de esclarecimento. Viveu, na carne, convicto de que além da matéria nada existe; de que, além da morte, só há o silêncio e a escuridão do não-ser. Às vezes, tais posições foram meramente filosóficas, isto é, platônicas. A despeito da descrença em qualquer tipo de realidade póstuma, não foram intrinsecamente maus, apenas desencantados, indiferentes, desarvorados intimamente, embora, na aparência, seguros e tranqüilos. São mais acessíveis, e mais prontamente aceitam a nova realidade.

Outros, porém, são daqueles que, descrentes da vida espiritual, entregaram-se de corpo e alma ao culto desenfreado da
matéria. Ao contrário dos teóricos do materialismo, estes são os que o praticam, em todos os sentidos. Disputaram fortunas a ferro e fogo, intrigando, matando, se preciso fosse, promovendo negociatas, roubando, falsificando, ao mesmo tempo em que se deixaram arrastar pelo sensualismo pesado, que avilta todos os sentidos e anestesia cada vez mais as faculdades e a sensibilidade. Para estes, nada é sagrado, nada importa, senão a satisfação de suas ambições, de seus desejos, de suas vontades.

A objetiva realidade da vida póstuma põe-nos em estado de total confusão. Alguns deles, endurecidos nas suas convicções, continuam a viver no mesmo clima de maquinações e articulações, ainda presos aos seus interesses terrenos, perseguindo aqueles encarnados e desencarnados que se atravessaram no seu caminho. Geralmente desejam a volta à carne, pois somente nela se sentem relativamente felizes, não apenas pelo esquecimento de suas misérias íntimas, mas porque lhes proporciona os prazeres mais grosseiros a que se habituaram.

Em outros, o choque desperta para uma condição que eles não poderiam jamais admitir sem o impacto da desencarnação. Quando incorporados aos médiuns, embora confusos, a princípio, acabam por reconhecer que continuam vivos depois da “morte”, pois estão pensando e falando, vendo e sentindo, através de um corpo que, evidentemente, não é o seu. Lembram-se das doenças que tiveram, mas se recusam a admitir que “morreram”, porque isto implicaria reconhecer que o materialismo que professavam é inteiramente falso. A relutância é, ainda, vaidade. Preferem continuar negando, por algum tempo, do que admitirem, honestamente, que foram ludibriados por sua própria descrença na verdade superior.

É preciso conduzi-los com tato e paciência. A súbita e inoportuna revelação da nova condição em que se encontram, poderá colocá-los em lamentável estado de choque emocional. Temos que compreender que é difícil àquele que não acredita na sobrevivência admitir que, a despeito da descrença em si mesmo, ele sobreviveu.

Em “Reformador” de setembro de 1975, no artigo “Lendo e Comentando”, está relatado um caso desses, tratado com extrema habilidade e carinho por uma excelente doutrinadora inglesa. O Espírito, por nome Tom, vivera agarrado aos seus bens e, especialmente, ao seu ouro, e, na sua imaginação, continuava a manipular as moedas, no mundo espiritual, totalmente desligado da nova realidade que vivia. Aos poucos, vai sendo conduzido a admiti-la.

O Intelectual

Nem sempre é materialista. A escala cromática aqui é ampla e variada. Encontramo-los de todos os feitios, variedades e tendências. Há os descrentes, indiferentes, materialistas, espiritualistas, religiosos ou não. Foram escritores, sacerdotes, artistas, poetas, médicos, advogados, nobres, ricos, pobres. Quase sempre se deixaram dominar por invencível vaidade, fracassando na provação da inteligência.

No binômio cérebro/coração, no qual o homem deve buscar equilíbrio, deixaram disparar na frente um dos componentes, em sacrifício do outro. Brilhantes, demoram-se na doce e venenosa contemplação narcisista da própria inteligência, fascinados pelos seus mecanismos, sua engenhosidade e os belos pensamentos que produzem. Julgam-se geniais, e muitas vezes o são mesmo. São bons argumentadores e, quando movidos para objetivos bem definidos, tornam-se verdadeiramente difíceis de serem despertados, pois se acham solidamente convencidos do poder e da força das suas próprias fantasias, suas doutrinas, seus sofismas e suas auto-justificações.

Vemo-los, às vezes, na condição de ex-sacerdotes também, como exímios criadores de tais sofismas. Estudaram profundamente os Evangelhos e a teologia ortodoxa. Leram os seus filósofos, escreveram tratados, pregaram sermões belíssimos, do ponto de vista literário, e tanto consolidaram suas construções, que acabaram acreditando nelas. São estes que constituem o diálogo mais difícil para o doutrinador. Não se exaltam, nem dão murros. Parecem, mesmo, suaves e tranqüilos. Têm respostas prontas e engenhosas para tudo, fazem perguntas bem formuladas, procurando confundir, para desarvorar o interlocutor.

Ao cabo de algum tempo de observação atenta, descobrimos que o intelectualismo é como qualquer outra forma de fuga; é também um esconderijo, para o Espírito que reluta em enfrentar uma realidade dolorosa.

Se conseguirmos restabelecer o vínculo, que sempre deverá existir, entre cabeça e coração, estaremos a caminho de ajudá-lo. Narrarei um caso prático, para ilustrar o que desejo dizer com isso.

O companheiro apresentou-se irônico, aparentemente muito seguro de si. É culto, inteligente, bom sofista, versado em filosofia, em teologia e até mesmo nos textos evangélicos, que cita com a maior facilidade e propriedade. Conversamos longamente, e ele não perde oportunidade de ridicularizar-me, ante minha pobreza intelectual e cultural. Num momento de incontida irritação, chama-me de débil mental e idiota, mas logo se contém, ao ser chamado à atenção por um companheiro desencarnado de mais elevada hierarquia, como depois verificamos.

Mesmo com a voz pausada, deixa escapar suas terríveis ameaças, dizendo que nosso barco vai virar e seremos empurrados para o fundo, com barco e tudo.

— Dessa vez — diz ele — não vai ser fácil. Você vai cair do galho, macaco!

Segundo diz, há muito me segue e tem vontade de dizer algumas verdades na minha cara, porque ainda tenho muito do homem velho, com o que concordo plenamente. Não sabe por que não as diz, pois está certo de que, se isso acontecesse, naquela mesma noite o grupo estaria liquidado. (Está, certamente, sentindo os controles do médium.) Fala do cerco que me vem fazendo, até mesmo nas minhas atividades profissionais, e refere episódios verídicos, para demonstrar sua familiaridade com o que diz respeito à minha vida particular. Conclui dizendo que, há tempos, quase conseguiram derrubar-me. (Há sempre um quase, na bondade infinita de Deus, quando nos empenhamos na tarefa abençoada de servir.)

Ao cabo de longa conversa, despede-se, algo sonolento, mas firme nas suas convicções. Oro por ele durante toda a semana e, na reunião seguinte, ele volta.

Não está mais tão irônico e seguro de si, como da primeira vez. Perdeu a aparente serenidade, revelando-se profundamente irritado, furioso mesmo, ameaçador, agressivo, impaciente. Deve ser por causa da perda do valoroso companheiro que na semana anterior o advertira, quando me chamou de débil mental e que, com a graça de Deus, conseguimos despertar.

Declara-se um líder, e que, se eu tivesse visão espiritual, veria que todos os seus companheiros estão ali, atrás dele, como um bloco. Estão prontos e dispostos a desencadear a luta. As ameaças são terríveis, mas sinto-o mais desesperado do que rancoroso. Diz que transpusemos todas as barreiras e que é preciso um basta final.

Enquanto conversamos, outro médium do grupo avisa-me que ouve bimbalhar de sinos e, em seguida, sons de órgão. Ele também ouve, mas recusa-se a reconhecer a situação, que, obviamente, teme, e insiste em retomar o debate filosófico-religioso. É a fuga desesperada ante toda e qualquer aproximação da emoção, que não seja o frio jogo de palavras a que está habituado e que o anestesia espiritualmente.

Segundo me diz o outro médium, a música prossegue a vibrar dentro dele. A essa altura, ele começa a apalpar o seu médium: a face, os olhos e o corpo, demorando-se nas mãos. Começa sutilmente a crise. Ele conclui, em voz alta, que são mãos de um organista. Pouco depois, ainda irritado, ante minha evidente falta de acuidade, diz-me que é cego! E mesmo assim domina, é um líder!, informa, satisfeito consigo mesmo. Sinto por ele uma compaixão infinita e me dirijo a ele com ternura, como se a pedir que me perdoe por não ter notado isso antes. Pergunto se permite que tentemos curá-lo, e ele recusa energicamente.

A essa altura, não consegue mais evitar que a música domine todo o seu ser. Fala sobre acordes que lhe causam verdadeiros choques. A crise aprofunda-se e ele ouve agora, irresistivelmente, a música sublime de um organista incomparável. Tenta desesperadamente fugir dela, tapa os ouvidos, bate com os cotovelos na mesa, cantarola uma canção, e diz a si mesmo:

Mas a torrente daquela música divina, que ele tem o privilégio de ouvir, arrasta-o irresistivelmente.

Refere-se, por certo, ao organista que, do invisível, toca para ele neste momento. Logo a seguir, começa a chorar, vencida pela emoção que há tanto sufocou em seu coração generoso. A música que ele amava, e compreendia como poucos, foi o instrumento sutil que a misericórdia divina utilizou para restabelecer o perdido contacto entre coração e mente, que andavam divorciados.

Trato-o com infinito carinho e amor fraterno, e quando lhe peço perdão pela dor que lhe causamos naquela crise necessária, ele retruca, entre irritado e confuso:

— Não peça perdão, seu tolo!

Em seguida parte, ainda em pranto e com a visão recuperada.

O Vingador

Vingar-se é ir à forra, punir alguém por aquilo que fez ao vingador e, por isso, vingança é uma palavra-chave nos trabalhos de desobsessão e esclarecimento. Aquele que se dedica a essas tarefas, precisa estudá-la a fundo, suas origens, suas motivações, seus mecanismos e as soluções que lhe estão abertas.

É preciso entender o vingador e aceitá-lo como ele se apresenta, se é que pretendemos ajudá-lo, pois ele é, antes de tudo, um prisioneiro de si mesmo, através da sua cólera e da sua frustração. Sua maior ilusão é a de que a vingança aplaca o ódio, quando, na realidade, o alimenta e o mantém vivo. Sua lógica é, ao mesmo tempo, fria e apaixonada, calculada e impulsiva, paciente e violenta, e sempre implacável. Envolvido no seu processo, ele nem sequer admite o perdão, e é capaz de perseguir sua vítima através de séculos e séculos, ao longo de muitas vidas, tanto aqui, na carne, como no mundo espiritual.

Quase sempre a vingança desdobra-se a partir de um caso pessoal, mas é comum encontrarmos também o vingador impessoal, aquele que trabalha para uma organização opressora. Ainda veremos isso mais adiante.

O vingador observa, planeja e espera a ocasião oportuna e o momento favorável. Não se precipita, mas não esquece: sempre que pode, interfere, ainda que seja somente para espetar uma agulha em sua vítima indefesa.

Casos tremendos e persistentes de obsessão vingativa resultam de amores frustrados, traidos ou indiferentes. Paixões irrealizadas ou aviltadas despertam os mais profundos sentimentos de revolta. De outras vezes, são crimes horrendos, como assassinatos, espoliações, desonras, difamações, iniqüidades de toda sorte.

O vingador é aquele que tomou em suas mãos os instrumentos da justiça divina. Não confia nela, ignora-a ou não tem paciência de esperar por ela. Não sabe, ainda, que o reajuste virá fatalmente, através da lei de causa e efeito. Todo aquele que fere com a espada, há de ser ferido por ela, segundo nos advertiu o Cristo. É certo, porém, que chegado o momento do resgate, a lei não exige que alguém — seja quem for — tenha que empunhar a espada para ferir o irmão devedor. Pode dar-se muito bem que ele se fira acidentalmente, caindo sobre um instrumento, por exemplo, ou morrendo numa intervenção cirúrgica, em princípio destinada a preservar-lhe a vida e, portanto, sem nenhuma intenção de cortar o fio que mantém unidos corpo físico e perispírito.

Em mensagem transmitida a Francisco Cândido Xavier, o “Irmão X” narra um episódio desses, em que uma atrocidade praticada no ano 177, ao tempo de Marco Aurélio, veio a ser cobrada pela lei, na tragédia de 17 de dezembro de 1961, na cidade fluminense de Niterói. As simetrias são perfeitas. Não faltou um só elemento nessa cobrança coletiva e despersonalizada. Aqueles que ajudaram a promover o dantesco episódio de Lyon, há quase dezoito séculos, reuniram-se no circo de Niterói. As mesmas correrias, o mesmo atropelo, a mesma passagem estreita por onde alguns escaparam ao inferno.

Tivemos, certa vez, um caso de vingança que muito nos marcou. Alguém nos pedira ajuda espiritual para uma jovem em constante estado de revolta, angústia e desajuste. Colocamos seu nome em nosso caderno de preces e aguardamos. Sem muita demora, duas ou três semanas após, compareceu ao grupo o Espírito indignado de seu perseguidor, e a história desenrolou-se. Fora seu esposo
em antiga existência, na Idade Média. Eram gente abastada e provavelmente da nobreza, pois viviam num castelo. Seu drama é que, segundo ele, todos os dias, através dos séculos decorridos, à mesma hora, ele abre determinada porta, já sabendo o que vai encontrar: a cena inesquecível do flagrante de traição. Matou-a e suicidou-se, segundo os deformados “códigos de honra” daquela época. No entanto, a tragédia, longe de pacificar seu coração ou aplacar seu rancor, ainda mais o exacerbou, porque sofreu horrores, não apenas por causa do assassinato da esposa, como, também, em razão do horrendo crime do suicídio. As dores que se seguiram consolidaram seu ódio, e, desde então, ele perseguiu o Espírito da antiga amada. Tanto ele, como ela, tiveram outras vidas, nesse ínterim, e ela estava novamente encarnada. Seu desejo, agora, era o de levá-la ao suicídio, para tê-la totalmente sob seu domínio. Ele sabe da sua responsabilidade e está bem consciente de que responderá pelos novos crimes que pratica para vingar-se, mas isso, para ele, não importa; o que interessa no momento, e esse momento dura séculos! é a vingança em si mesma. Por outro lado, os vingadores sempre se esquecem, ou ignoram, que não há sofrimento sem motivo. No caso, se ele sofreu traição, é porque, por sua vez, já traiu também, no passado. E como poderemos negar indefinidamente o perdão de uma falta cometida contra nós, por mais grave que seja, se também precisamos de que as nossas próprias faltas sejam perdoadas?

No caso sob exame, foi realmente o que os salvou do tenebroso drama. Lembrei-me de perguntar se não tinham tido filhos. Realmente tiveram, duas criaturinhas encantadoras, um casal, que ele ternamente dizia que eram dois anjos. Disse-me, ainda, que atrás da porta seguinte, que ele se recusava sempre a transpor, sabia que encontraria os filhos amados. Era preciso, no entanto, manter acesa a chama rubra do ódio que, temia ele acertadamente, não poderia subsistir ao lado da doçura do amor paterno, que o colocaria em uma situação de ternura que ele queria evitar.

Na sessão seguinte, trouxeram-lhe, por desdobramento, o Espírito da esposa. Houve um diálogo emocionado, do qual percebíamos apenas as suas falas. Sente-se vazio e cansado. Não tem mais ânimo, nem para vingar-se.

— Você é um trapo, e eu também — diz a ela. — Somos dois trapos. Vá em paz, que não a perseguirei mais. Que Deus nos abençoe…

E adormeceu.

É extremamente complexo o processo da vingança. De certa forma, a lei universal nos proporciona os elementos para exercê-la, porque, com sua falta contra nós, aquele que nos feriu colocou-se à mercê da reparação, quase sempre dolorosa. E, por isso, o vingador sente-se um instrumento da justiça divina, com todo o direito de exercê-la, esquecido de que está reassumindo um compromisso que, em parte, havia resgatado pela própria aflição que procura punir a seu modo. Por outro lado, ao mesmo tempo em que ele se vinga, o ofensor libera-se pela dor, e acaba, ao longo do tempo, por situar-se fora de seu alcance, enquanto ele, o perseguidor, continua preso à sua problemática e, portanto, às suas angústias, com um passivo enorme de faltas ainda por resgatar.

Ao vingar-se, ele reabre o ciclo da culpa e expõe-se, por sua vez, novamente à lei, que se voltará contra ele, alhures no tempo e no espaço.

Se conseguirmos convencer o vingador da lógica férrea desse mecanismo, estaremos em condições de ajudá-lo a libertar-se; caso contrário, ele seguirá escravo da sua própria vingança, de vez que o livre-arbítrio, que lhe faculta a decisão de agir, responde do mesmo modo, pelas conseqüências amargas e inelutáveis que provoca. Não há outras opções: ou ele perdoa e segue à frente, ou insiste em cobrar, e demora-se nas sombras do sofrimento.

Consideramos diferentemente o obsessor e o vingador. Embora tenham muito em comum, nos seus métodos de ação e no que poderíamos chamar de sua filosofia, eles diferem sutilmente: obsessão muitas vezes é vingança, mas a vingança não é, necessariamente um processo obsessivo. Não sei se me faço entender. O Espírito pode vingar-se longa e profundamente, sem desencadear obsessões à sua vítima, empenhando-se apenas em criar-lhe dificuldades e dores, angústias e frustrações. É que o Espírito, encarnado e desencarnado, que sofre um processo vingativo, está, de certa forma, à mercê de seu algoz, porque ao errar expôs-se ao reajuste; mas, mesmo devendo, perante a lei desrespeitada, poderá estar a salvo da obsessão em si mesma. Assistimos, às vezes, à vingança indireta. Sem poderem, por qualquer razão, atingir a vítima visada, os “cobradores” alcançam-na fazendo sofrer aqueles que a cercam e que, por suas falhas pessoais e por suas conexões espirituais com a vítima, são impiedosamente sacrificadas ao ódio.

De um pobre irmão, envolvido em antiquíssima trama vingativa, alguém ouviu dizer, certa vez:

— Sou o responsável por todas as dores que os teus vêm sofrendo há muito tempo…

Isto não quer dizer que a vítima indireta seja invulnerável ou inatingível, pela santificação; é que, empenhada em sincero e honesto processo de recuperação, dedicado à prece, ao serviço ao próximo, à melhora íntima, coloca-se sob a proteção da própria lei divina, que lhe concede um crédito de confiança, pois as culpas são resgatadas também através do amor e não apenas da dor…

Atenção, porém, para um pormenor: isto não significa que sofram os justos pelos devedores, nem os pais pelos filhos, ou a esposa pelo marido. Não há sofrimento inocente na justiça di­vina. O que acontece, nesses casos, é que o vingador atinge a vítima, que se colocou fora de seu alcance através daqueles que lhe são caros, mas que também se acham em débito perante a lei, por motivos outros.

Magos e Feiticeiros

Os trabalhadores da desobsessão não devem ignorar a realidade da magia negra, a fim de não serem tomados de surpresa nas suas tarefas redentoras. Com freqüência, terão oportunidade de observar tentativas de envolvimento do grupo e de seus componentes, ou de pessoas que dele se socorrem, promovidas por antigos magos e feiticeiros que, no mundo espiritual, persistem nas suas práticas e rituais.

Extremamente complexo e delicado, especialmente porque é escassa, nesse particular, a literatura doutrinária de confiança existente, o assunto precisa ser abordado com muita prudência e lucidez.

Foram muito sóbrios os Espíritos, limitando-se a respostas sumárias que, não obstante, deixaram aberturas para futuros desdobramentos. Ensinaram, por exemplo, que um “homem mau” não poderia, “com o auxílio de um mau Espírito que lhe seja dedicado, fazer mal ao seu próximo”, porque “Deus não o permitiria”.

A despeito da notável economia de palavras, o pensamento contido nesse período é, ao mesmo tempo, amplo e exato. Naquilo que Deus não o permite, realmente, nada podem fazer os Espíritos ainda voltados para o mal, e essa é a nossa proteção, pois o que seria de nós se tudo lhes fosse permitido? Quando, porém, nos credenciamos a esse amparo? Talvez seja melhor reformular a questão: Quando nos tornamos vulneráveis e, portanto, expostos àcobrança? A partir do momento em que nos atritamos com as leis divinas, colocando-nos, portanto, não fora de sua proteção, não abandonados por Deus, mas submetidos às conseqüências de nossas próprias ações. É assim que um Espírito faltoso coloca-se, por exemplo, ao alcance de dores inomináveis, como a da obsessão. Realmente, seria desastroso que qualquer Espírito desajustado pudesse fazer conosco o que bem entendesse, mas estejamos certos de que, ao cometer nossos desatinos, abrimos a eles as portas da nossa intimidade. O próprio Cristo advertiu-nos de que, se não nos reconciliássemos com os nossos adversários, eles nos levariam ao juiz, e o juiz nos mandaria à prisão, donde somente seríamos liberados depois de cumprida toda a pena, até o último centavo.

Quanto à crença no poder de enfeitiçar, os Espíritos foram cautelosos, declarando que tais fatos são naturais, mal observados e, sobretudo, mal compreendidos, mas que “algumas pessoas dispõem de grande força magnética, de que podem fazer mau uso, se maus forem seus próprios Espíritos, caso em que possível se torna serem secundados por outros Espíritos maus”.

“Não há palavra sacramental nenhuma, nenhum sinal cabalístico, nem talismã, que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porqüanto estes só são atraidos pelo pensamento e não pelas coisas materiais.”

“Não pode aquele que, com ou sem razão, confia no que chama a virtude de um talismã, atrair um Espírito, por efeito mesmo dessa confiança, visto que, então, o que atua é o pensamento, não passando o talismã de um sinal que apenas lhe auxilia a concentração?”

“É verdade — respondem os Espíritos —; mas, da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos depende a natureza do Espírito que é atraído.”

Do que se depreende que o talismã, em si, nada vale, mas funciona como uma espécie de condensador de energias psíquicas emanadas do operador que, pelo pensamento, atrai os seres desencarnados que lhe são afins.

Realmente, como muito bem observa Kardec, em nota de sua autoria, em seguida à Questão número 555, “O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que os fatos se apresentam exagerados pela imaginação.”

Lamentavelmente não temos ainda um estudo aprofundado dessa curiosa temática, mas é certo que o Espiritismo tem condições para desmistificar muito da complicada e, às vezes, ingênua ritualística da magia, retirando-lhe a aura de mistério e ocultismo, para explicá-la em termos de conhecimento científico, aberto, racional, dentro do contexto das leis naturais. O Espiritismo não ignora o fenômeno, nem o nega, como vimos. A Doutrina empenha-se em negar é o caráter sobrenatural que alguns procuram atribuir aos fenômenos, bem como as inúteis complicações dos ritos, fórmulas, invocações, posturas, símbolos, apetrechos e instrumentos de que se valem os operadores, que não passam de médiuns agindo em consonância com seus companheiros desencarnados.

— “As antigas assertivas astrológicas têm a sua razão de ser. O campo magnético e as conjunções dos planetas influenciam no complexo celular do homem físico, em sua formação orgânica e em seu nascimento na Terra; porém, a existência planetária é sinônimo de luta. Se as influências astrais não favorecem a determinadas criaturas, urge que estas lutem contra os elementos perturbadores, porque, acima de todas as verdades astrológicas, temos o Evangelho, e o Evangelho nos ensina que cada qual receberá por suas obras, achando-se cada homem sob as influências que merece.”

Dentro dessa mesma linha de pensamento, reconhece, o esclarecido mentor, as influências que podem exercer, sobre Espíritos encarnados ou desencarnados, os nomes que recebem, por causa da “simbologia sagrada das palavras”. Também os números “possuem a sua mística natural”, segundo suas vibrações. Os próprios objetos armazenam energias que ainda não estão bem definidas para nós.

— “Os objetos — responde Emmanuel à questão número 143, mormente os de uso pessoal, têm a sua história viva e, por vezes, podem constituir o ponto de atenção das entidades perturbadas, de seus antigos possuidores no mundo; razão por que parecem tocados, por vezes, de singulares influências ocultas, porém, nosso esforço deve ser o da libertação espiritual, sendo indispensável lutarmos contra os fetiches, para considerar tão-somente os valores morais do homem na sua jornada para o Perfeito.”

O assunto mereceu também observações, ainda que sumãrias, de André Luiz, em “Evolução em dois Mundos” — livro que talvez ainda levemos meio século para desdobrar em todas as suas impli­cações. Diz o autor espiritual que, a certo ponto da história evolutiva…

– … “Iniciou-se o correio entre o plano físico e o plano ex­trafísico, mas, porque a ignorância embotasse ainda a mente humana, os médiuns primitivos nada mais puderam realizar que a fascinação recíproca, ou magia elementar, em que os desencarnados, igualmente inferiores, eram aproveitados, por via magnética, na execução de atividades materialonas, sem qualquer alicerce na sublimação pessoal.”

E prossegue:

— “Apareceu então a goecia ou magia negra, à qual as inteligências superiores opuseram a religião por magia divina, acentuando-se a formação da mitologia em todos os setores da vida tribal.”

“A luta entre os Espíritos retardados na sombra e os aspirantes da luz encontrou seguro apoio nas almas encarnadas que lhes eram irmãs. Desde essas eras recuadas, empenham-se o bem e o mal em tremendo conflito que ainda está muito longe de terminar, com base na mediunidade consciente ou inconsciente, técnica ou empírica.”

Essa digressão introdutória tornou-se indispensável para que a nossa penetração no lusco-fusco da magia conte com um suporte de bom senso e racionalismo, a funcionar como fio de Ariadne, que nos permita transitar pelos seus meandros, sem o menor temor de perder o caminho de volta.

Não resta dúvida de que os fenômenos elementares de magia reportam-se às eras primitivas, como nos assegura André Luiz. Embora os autores especializados procurem distinguir magia de feitiçaria — e ainda veremos isto um pouco adiante — a Enciclopédia Britânica lembra que o termo inglês para esta última — “witchcraft” — quer dizer a arte ou ofício do sábio, de vez que a raiz semântica da primeira seção da palavra — “witch” — está associada com a palavra “wit”, saber.

Realmente, os magos, originários, segundo Lewis Spence, da antiga Pérsia, eram cultores da sabedoria de Zoroastro. Possivelmente da raça média, adquiriram enorme prestígio, especialmente, ao que parece, depois que Ciro os institucionalizou, ao fundar o império persa, sobre o qual exerceram considerável influência político-religiosa. É evidente que esse prestígio tinha que ser alicerçado em rico acervo de conhecimentos, pois o homem sempre respeita e, às vezes, teme aquele que sabe.

“Religião, filosofia e ciência — escreve Spence — estavam todas em suas mãos. Eram médicos universais que curavam os doentes do corpo e do espírito e em estrita consistência com essas características, socorriam as mazelas do Estado que é apenas o homem em sentido mais amplo.”

Distribuíram-se em três graus: os discípulos, os professores e os mestres, o que vale dizer que o conhecimento de que dispunham os grandes mestres era ministrado por processos iniciáticos, à medida que o discípulo revelava condições de absorvê-lo e aplicá-lo rigorosamente, segundo os métodos e interesses da Ordem.

A organização correspondeu generosamente ao apoio que recebeu de Círo, muito contribuindo, com seus recursos, para consolidação das conquistas do rei persa, mas, por volta do ano 500 antes do Cristo, entrou em desagregação, especialmente por causa da tenaz perseguição de Dario Histaspes. Emigrações em massa espalharam-nos pela Capadócia e pela Índia, mas ainda eram uma força respeitável ao tempo de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) que, segundo Spence, sentiu-se enciumado de seus poderes.

São profundas as implicações da magia em alguns cultos religiosos, mais intensamente, é claro, nos primitivos, tanto quanto na medicina, na astrologia, no magnetismo, na alquimia e em certas correntes místicas que prevalecem até hoje.

Lewis Spence declara, no seu erudito verbete, que, a seu ver, misticismo e magnetismo são idênticos para alguns ocultistas, entre os quais cita, em tempos recentes, Auguste Comte, o Barão du Potet e o Barão de Guldenstubbé, este último autor do livro “La Realité des Esprits”, publicado em 1857.

Sir James Frazer considera magia e religião uma só coisa, tão identificadas se acham entre si. Isto é provavelmente verdadeiro
para as primitivas crenças, mas não para as religiões mais recentes, que embora conservem sinais exteriores dos antigos cultos — simbolos, ritos, fórmulas, encantações —, perderam contacto com os seus aspectos esotéricos.

Um conceito reproduzido por Spence informa-nos que o apelo aos deuses constitui prática religiosa, enquanto a prática da magia tenta forçá-los à complacência. A religião é freqüentemente oficial e quase sempre organizada, enquanto a magia é, usualmente, proibida e secreta.

Embora Spence nos fale da magia na Pérsia, sabemos que ela floresceu amplamente no Egito, muito antes da época citada na sua obra. Os livros mediúnicos de Rochester, vários deles publicados pela FEB, narram, com minúcias de extremo realismo, processos terríveis de magia e ocultismo, como em “O Chanceler de Ferro” e “Romance de uma Rainha”.

O segundo livro do Antigo Testamento — o Êxodo — especialmente nos capítulos de números 5 a 13, narra o duelo entre os magos egípcios e hebreus, ante a aturdida expectativa de todo o país.

Já antes disso, no capítulo 4, os guias espirituais de Moisés conferem-lhe poderes ostensivos, pois certamente ele deveria conhecer bastante acerca dos rituais e da teoria que os sustentava.

O Espírito que se apresenta como Jeová ordena que conduza o povo hebreu para fora do Egito, mas Moisés revela sua impotência em convencer sua gente a segui-lo.

— Não acreditarão em mim — diz ele — nem ouvirão a minha voz, pois dirão: Jeová não te apareceu coisa alguma.

— Que tens tu na mão? — pergunta-lhe Jeová.

— Um cajado.

— Atira-o ao chão.

Mal atirado ao solo, o cajado transformou-se numa serpente. Ante o temor de Moisés, o Espírito disse-lhe que a agarrasse pelo pescoço, o que ele fez, voltando a serpente a ser um mero cajado.

Essa mesma “mágica”, no melhor sentido da palavra, Moisés faria diante do Faraó e sua corte.

Segundo Will Durant, a crença na feitiçaria, na Idade Média, era praticamente universal. “O Livro da Penitência”, do Bispo de
Exeter, condena as mulheres “que professam a faculdade de modificar a mente dos homens pela feitiçaria, ou encantamento, como do ódio para o amor ou do amor para o ódio, bem como enfeitiçar ou roubar os bens dos homens”, ou ainda as que declaram “cavalgar durante certas noites certos animais, com um bando de demônios em formas femininas, ou estarem em companhia de tais”.

Quando a Igreja resolveu entrar em cena para coibir a prática, criou-se um clima de terror que, ao mesmo tempo em que combatia as crendices, parecia atribuir-lhes certa substância, que mais as autenticavam na imaginação do povo inculto, porque ninguém combate aquilo que não teme. As conseqüências dessas impiedosas perseguições foram danosas e lamentáveis para o entendimento do fenômeno mediúnico, e é bem provável que a notícia que os Espíritos superiores vieram trazer a Kardec, no século 19 pudesse ter sido antecipada de um século ou mais, se em vez de queimar os médiuns medievais, sob a acusação de que mantinham pactos com o demônio, procurassem estudá-los com respeito e interesse. A despeito disso, não foram poucos os prelados católicos que, durante toda a existência, mantiveram cultos paralelos de magia negra, com os seus estranhos rituais.

Ao escrevermos este livro, o mundo moderno assiste, algo perplexo, a um fantástico ressurgimento da magia negra e da feitiçaria, por toda parte e, desta vez, não nos países menos desenvolvidos, ou primitivos, e sim nos de mais avançada tecnologia e mais sofisticada cultura, como a Inglaterra, os Estados Unidos, a França, a Itália.

A Britânica, tanto quanto Sir James Frazer, atribui à magia origens nitidamente religiosas, sob a forma de cultos à base de animais sacrificados. Oferendas de sangue e de estranhas substâncias eram feitas para propiciar os deuses em troca de favores, fosse em benefício de alguém ou com a intenção de destruí-lo.

Entre os ritos destinados a destruir um inimigo, por exemplo, o mais antigo, dramático e conhecido, consiste em modelar uma pequena estátua representativa da vítima, geralmente em cera, e, com os métodos apropriados, espetá-lo com agulhas e punhais.

Seria impraticável, num resumo como este, repassar todo o campo da magia e empreender sua avaliação em termos de Doutrina Espírita; poderemos, não obstante, tentar oferecer algumas noções colhidas em alentados livros, facilmente encontráveis no mercado, praticamente em todas as línguas vivas.

Um desses autores é o médico francês, Dr. Gérard Encausse, contemporâneo de Allan Kardec, que, sob o pseudônimo de Papus, escreveu abundantemente sobre o assunto. Seu filho, o Dr. Philippe Encausse, também médico, revelou igual interesse pela matéria, produzindo algumas obras sobre o assunto, como “Sciences Occultes et Déséquilibre Mental”.

“Existe, não obstante — escreve ele, à página 11 de seu livro —, uma forma de experiências mágicas próprias para as pessoas pusilânimes, e que aconselharemos a quantas desejarem divertir-se, dedicando, à sobremesa, alguns momentos aos fenômenos de espiritismo. Nada têm de difíceis e sim muito consoladores, e, afinal de contas, situam-se a tal distância da verdadeira magia, que não há a temer nenhum acidente sério, desde que não se esqueça da precaução de deixar as coisas no momento oportuno.”

Ao apreciar alguns aspectos da magia, da qual o Dr. Encausse é admirador ardoroso, tentemos não ser tão radicais e superficiais como ele, em relação ao Espiritismo.

Papus acata o princípio, também lembrado por Sir James Frazer, acima citado, segundo o qual o mecanismo da magia precisa de um veículo entre a vontade humana e as coisas inanimadas. Na opinião de Sir James Frazer, toda a magia baseia-se na lei da simpatia, ou seja, “as coisas atuam umas sobre as outras, a distância, por estarem secretamente ligadas entre si por laços invisíveis

“Para isso — escreve Papus — o operador deverá aplicar sua vontade, não sobre a matéria, mas sobre aquilo que incessantemente a modifica, o que a Ciência Oculta denomina o plano de formação do mundo material, ou seja, o plano astral.”

Esse plano, os magos concebem como sendo as forças da natureza, das quais, por certo, tanto se utilizam os trabalhadores do bem, como os outros.

“Não cabe dúvida — prossegue Papus — que são as forças da natureza que o mágico deverá pôr em ação, sob o influxo da sua vontade; mas que classe de forças são essas?”

Diz ele que são as forças hiperfísicas, assim entendidas as que apenas diferem das energias meramente físicas nas suas origens, pois emanam de seres vivos e não de mecanismos inanimados.

No fenômeno da pronta germinação, crescimento da planta e produção de frutos, que alguns faquires teriam realizado, segundo testemunhos nos quais Papus acredita, aconteceria apenas uma abundante doação, à semente, e depois à planta e ao fruto, das energias orgânicas do faquir, que se poriam em consonância com as energias armazenadas na semente.

“A vontade do faquir — diz Papus — põe em ação uma força capaz de desenvolver, em algumas horas, a planta, que, em condições normais, levaria um ano para atingir aquele ponto de crescimento. A dita força não tem muitos e diversos nomes de bom sentido; pura e simplesmente, chama-se vida.”

A magia seria, portanto, uma ação consciente da vontade sobre a vida. A definição completa proposta por Papus é a seguinte:

“É a aplicação da vontade humana dinamizada à evolução rápida das forças vivas da natureza.”

À página 91, resume ele a sua teorização, ao dizer que são três as maneiras de agir sobre a natureza:

1ª — Físicamente, modificando a estrutura do ser ou de um ponto qualquer na natureza, pela aplicação exterior de forças físicas, que utiliza o trabalho do homem. A agricultura, em todas as categorias, a indústria, com todas as suas transformações, entram neste quadro.

2ª — Fisiológica ou astralmente, modificando a estrutura de um ser, por meio da aplicação de certos princípios e de certas forças, não à forma exterior, mas aos fluídos que circulam dentro do aludido ser. A Medicina, em todos os seus ramos, é um exemplo desse caso, e haveremos de declarar que a Magia admite a possibilidade de influir sobre os fluídos astrais que atuam na natureza e sobre os que atuam nos homens.

3ª — Psiquicamente, atuando diretamente, não sobre os fluídos, mas sobre os princípios que os põem em movimento.”

Vamos conferir:

“Colaboradores desencarnados — escreve André Luiz —extraiam forças de pessoas e coisas da sala, inclusive da Natureza em derredor, que casadas aos elementos de nossa esfera faziam da câmara mediúnica precioso e complicado laboratório.”

O resto é aplicação prática desses princípios: se os orienta­mos para o bem, obteremos resultados positivos; se os dirigirmos para o mal, arcaremos com a responsabilidade correspondente. E é precisamente na aplicação que mais veementes restrições o Espiritismo teria a fazer à magia, ainda que sem tocar os tenebrosos domínios da magia negra.

Ao cuidarem dos problemas da obsessão, por exemplo, mesmo os adeptos mais bem informados da magia, revelam um despreparo comovedor, atribuindo a base do fenômeno à formação das chamadas larvas, que se alimentariam da “substância astral” emanada do “imprudente que lhes deu vida”. Para a criação dessas larvas, basta que se tenha medo dos ataques de ódio de outra pessoa, e segundo Papus, a prática mediúnica espírita seria uma dessas causas.

Papus oferece dois métodos diferentes para tratamento dessas “obsessões”: um de ação indireta, outro de ação direta.

Exemplifica ambos. Num deles, em Londres, optou pelo método indireto, magnetizando uma senhora na presença do obsidiado.

A mulher, em transe, via uma faixa fluídica pairando em certo recanto da residência da vítima. Orientado pela descrição da mulher, Papus desenhou a faixa num pedaço de papel branco, “consagrado e perfumado”, e prosseguiu:

“Terminado que foi o desenho, uma fórmula e uma prece puseram em comunicação a imagem física com a forma astral e então cortamos o desenho em vários pedaços, com a ajuda de uma grande e afiada lâmina de aço. A mulher adormecida declarou que os cortes influiram, incontinenti, na forma astral, que, igualmente, se desfez em pedaços.”

E, com isto, estaria curada a “obsessão”…

O segundo método (direto) seria recomendável para “os casos em que a obsessão toma um caráter especialmente grave”.

Baseia-se no princípio de que as larvas e os elementais — seres algo animalizados que servem aos magos — alimentam-se da substância astral de que é muito rico o sangue. O método consiste, pois, no seguinte: toma-se uma mecha de cabelos do obsidiado, que deverão ser incensados, consagrando-os segundo o procedimento habitual. Em seguida, o paciente deverá aproximar-se e diante dele se molhará um punhado de seus cabelos no sangue de uma pomba ou de uma cobaia, também consagrados sob a influência de Júpiter ou de Apolo, pronunciando-se o Grande Conjuro de Salomão. Para isto, o oficiante deverá vestir-se de roupas brancas.

Em seguida, colocar o cabelo, molhado em sangue, sobre uma pequena prancha, traçar à sua volta um círculo, desenhando-o com uma mistura de carvão e ímã pulverizado. Escrever no interior do círculo, nos quatro pontos cardeais, as quatro letras do tetragrama sagrado. A seguir, com a espada mágica (ou, na sua falta, com uma ponta de aço comum, com cabo de madeira envernizada) investir energicamente contra os cabelos, ordenando à larva que se dissolva.

Segundo o autor, o processo raramente falha, pelo menos depois de repetido três vezes, de sete em sete dias.

A reprodução destes métodos não tem por objeto aqui ridicularizar o procedimento daqueles que os praticam, pois como seres humanos, e irmãos nossos, merecem respeito e consideração; limitamo-nos a expô-los. Aqueles que lidam com graves problemas obsessivos, sabem muito bem que pouca diferença existe entre esse procedimento e o recurso igualmente inócuo do exorcismo eclesiástico. Num ou noutro caso, podem, no entanto, produzir resultados positivos, inteiramente aleatórios, seja porque o Espírito obsessor ficou algo impressionado com as complexidades do ritual, ou porque resolveu, “sponte sua”, abandonar sua vítima; mas é raro que um obsessor ferrenho e tenaz desista definitivamente da luta, apenas porque alguém o ameaçou com uma espada.

Por exemplos como estes, podemos admitir que os verdadeiros segredos da magia perderam-se há muito. Restaram apenas fragmentos de uma técnica que, em tempos idos, foi manipulada com habilidade e competência. Os magos caldeus, persas e egípcios não ignoravam fenômenos elementares como os da obsessão, a ponto de tentarem curá-la com práticas tão ingênuas. Seus recursos e conhecimentos eram muito mais amplos e profundos. Mas, se essa técnica perdeu-se para os encarnados — pelo menos para os que têm escrito os tratados mais conhecidos de magia —, ela se preservou para os Espíritos desencarnados, antigos magos que levaram para a vida póstuma os conhecimentos especializados.

A propósito, parece ainda oportuno reproduzir uma das normas coligidas por Papus:

“Tratai de não vos servir jamais desta arte contra vosso próximo, a não ser para uma vingança justa. Mesmo assim, porém, aconselho-vos que é melhor imitar a Deus, que perdoa, e que vos tem perdoado a vós mesmos. E não há ocasião mais meritória do que a de perdoar.”

A despeito do apelo ao perdão, quem achará que sua vingança é injusta? Buscando novamente André Luiz, encontramos em “Nos Domínios da Mediunidade” esta observação preciosa de Aulus:

— “Abstenhamo-nos de julgar. Consoante a lição do Mestre que hoje abraçamos, o amor deve ser nossa única atitude para com os adversários. A vingança, Anésia, é a alma da magia negra. Mal por mal, significa o eclipse absoluto da razão. E, sob o império da sombra, que poderemos aguardar senão a cegueira e a morte?”

Outro autor bastante conceituado entre os entendidos é Eliphas Levi. O Dr. Gérard Encausse tem-no em elevada conta e, por várias vezes, em suas obras, refere-se a ele com respeito e admiração. Eliphas Levi também viveu no século 19 e sua obra “Dogma e Ritual da Alta Magia” (1), por exemplo, foi escrita em 1855, quando o Espiritismo estava ainda na fase preliminar das mesas girantes. Embora sem declarar-se católico, Levi acata os principais dogmas ortodoxos: a divindade de Jesus, a Trindade, a existência do céu e do inferno. A despeito disso, não se furta a algumas criticas veementes, como esta, por exemplo:

“A Igreja ignora a magia, porque deve ignorá-la ou perecer, como nós o provaremos mais tarde; ela nem ao menos reconhece que seu misterioso fundador foi saudado no seu berço por três magos, isto é, pelos embaixadores hieráticos das três partes do mundo conhecido, e dos três mundos analógicos da filosofia oculta.”

A obra de Papus é bem mais didática e ordenada do que a de Levi, mas os princípios fundamentais identificam-se em vários
pontos importantes e ambos consideram o mago como o verdadeiro conhecedor e o feiticeiro como simples imitador. Papus usa uma imagem, dizendo que o mago é o engenheiro da magia, enquanto o feiticeiro é simples obreiro.

“Há uma verdadeira e uma falsa ciência — escreve Levi —; uma magia divina e uma magia infernal, isto é, mentirosa e tenebrosa; temos de revelar uma e desvendar outra; temos de distinguir o mago, do feiticeiro; e o adepto, do charlatão.”

O estilo de Levi, como, aliás, o de Papus, também, é algo pomposo, às vezes obscuro e nem sempre muito coerente. Ambos concordam, porém, em que o conceito fundamental da magia está na movimentação, em proveito próprio, dos segredos e forças da natureza.

Levi defende a tese de que a resistência, num sentido, é indispensável para que a força aplicada, em sentido contrário, se robusteça e a vença. Seus dogmas não são menos surpreendentes, como este, por exemplo:

“Assim, para o sábio, imaginar é ver; como, para o mago, falar é criar. Aquele que deseja possuir, não deve dar-se. Só pode dispor do amor dos outros aquele que é dono do seu, ou seja, não o entrega a ninguém.”

Quanto ao fenômeno das mesas girantes, diz ele, “outra coisa não são senão correntes magnéticas que começam a formar-se, e solicitações da natureza que nos convida, para a salvação da humanidade, a reconstituir as grandes cadeias simpáticas e religiosas”. Por isso, atribui “todos os fatos estranhos do movimento das mesas ao agente magnético universal, que procura uma cadeia de entusiasmo para formar novas correntes”. Os golpes, “raps” e os instrumentos que tocam, aparentemente sozinhos, “são ilusões produzidas pelas mesmas causas”.

Sua descrição da evocação do Espírito de Apolônio de Tiana, em Londres, é de uma riqueza impressionante de minúcias e começa com um sabor de romance de capa e espada, quando ele recebe, dentro de um envelope, no hotel, um cartão cortado transversalmente, com este recado:

“Amanhã, às três horas, diante da abadia de Westminster, vos será apresentada a outra metade deste cartão.”

Era uma senhora, e colocou à disposição dele, após os juramentos devidos, arsenal completo, com toda a instrumentação necessária a uma evocação. Ao cabo de complicadíssimo ritual, um Espírito manifestou-se, realmente:

— “Chamei três vezes Apolônio, fechando os olhos; e, quando os abri, um homem estava diante de mim, envolto inteiramente por uma espécie de lençol, que me pareceu ser mais cinzento do que branco; a sua forma era magra, triste e sem barba, o que não combinava exatamente com a idéia que primeiro tinha de Apolônio. Experimentei uma sensação extraordinária de frio, e quando abri a boca para interrogar o fantasma, me foi impossível articular um som. Pus, então, a mão sobre o signo do pentagrama, e dirigi para ele a ponta da espada, ordenando-lhe mentalmente, por este signo, a não me amedrontar e a obedecer-me. Então, a forma ficou mais confusa e ele desapareceu imediatamente. Ordenei-lhe que voltasse: então senti passar, junto a mim, como que um sopro, e, alguma coisa tendo-me tocado na mão que segurava a espada, tive imediatamente o braço adormecido até os ombros. Julguei entender que esta espada ofendia o Espírito, e a plantei, pela ponta, no circulo junto a mim. A figura humana reapareceu logo; mas senti tão grande fraqueza nos meus ombros e um repentino desfalecimento apoderar-se de mim, que dei dois passos para sentar. Desde que fiquei sentado, caí num adormecimento profundo e acompanhado de sonhos, de que me restou, quando voltei a mim, somente uma lembrança confusa e vaga.”

Assim foi realizada a evocação que, sem nenhum ritual complicado, sem substâncias, círculos, espadas e vestimentas especiais, e sem evocação, realiza-se, a cada instante, em incontáveis sessões mediúnicas.

Quanto à magia negra, apresenta o autor o que chama de revelação nova e que consiste no seguinte:

“O diabo, em magia negra, é o grande agente mágico empregado para o mal por uma vontade perversa.”

Também o enfeitiçamento está dentro dessa linha de raciocínios.

“O instrumento do enfeitiçamento não é outro senão o próprio grande agente, que, sob a influência de uma vontade má, se torna, então, real e positivamente o demônio.”

Por causa desse e de outros princípios e noções, não é fácil lidar com os magos desencarnados. Não exatamente por causa dos danos que possam causar-nos. Se estamos num grupo mediúnico bem constituído e harmonizado, nada conseguirão contra nós. Nada sofreremos em razão do próprio trabalho de desobsessão, o que seria injusto, mas é claro que, como seres imperfeitos que somos, temos abertas as brechas das nossas próprias imperfeições. Como nos disse um amigo espiritual, certa vez, sofreremos, no decorrer do trabalho de desobsessão, apenas aquilo que estiver autorizado pela nossa ficha cármica. Ë claro, pois, que os trabalhadores das sombras empenharão o melhor de seus esforços no levantamento de nossas fichas, ou seja, de nossa vida pregressa, estudando-nos sob todos os ângulos, vigiando-nos, a fim de surpreenderem-nos no momento em que mostramos onde a nossa cerca está arrombada… Entrarão em ação imediatamente. Estão convictos de que poderão atingir-nos; é só questão de tempo e oportunidade, pensam eles, e, como dizia Levi, “para poder é preciso crer que se pode e esta fé deve traduzir-se imediatamente em atos”.

Estejamos vigilantes, porém tranqüilos e guardados na paz do Cristo. Se o nosso trabalho é de Deus, sigamos em frente, serenos, confiantes, destemidos. Estejamos preparados, porém, para enfrentar os companheiros desarmonizados. Aqueles que por longos séculos vêm praticando a magia, estão habituados a vencer pela vontade disciplinada — que aprenderam a dominar — todos os obstáculos. Não nos impressionemos, porém, com os seus rituais, seus gestos, seus talismãs, suas evocações, suas palavras misteriosas e secretas.

Temos que atuar não sobre esses sinais exteriores dos seus cultos, mas sobre os seus Espíritos atormentados, embora aparentemente següros e frios. Toda aquela serenidade aparente desmorona, quando conseguimos convencê-los de seus trágicos enganos. Estejamos prontos para ajudá-los, pois este é o momento mais grave, mais sério, mais profundamente humano de suas vidas: quando entrevêem uma réstia de luz a iluminar-lhes o próprio coração, os escombros dos antigos sonhos, os fantasmas que trazem no íntimo, os desenganos, os remorsos, as angústias, o desespero. É preciso tratá-los com carinho, com humildade e singela compreensão, porque a dor do despertamento é, quase sempre, esmagadora. Quem a presenciou pode fazer idéia, porque senti-la, em toda a sua profundidade, somente aquele que a experimentou.

Lembremo-nos de que os Espíritos que na Terra estiveram envolvidos nas práticas mágicas não desapareceram, nem se perdeu o conhecimento dos mecanismos de certas leis do magnetismo, da hipnose, da manipulação de drogas e fluídos, de forças naturais e de toda a parafernália que lhes proporcionava poderes secretos e misteriosos, mas muito reais.

Com os esclarecimentos contidos hoje na Doutrina Espírita, estamos em condições de entender muitos desses segredos e mistérios, pois, no fundo, o mago sempre foi um médium, assistido por companheiros desencarnados, com os quais se afina bem, no interesse de ambos. Os Espíritos vivem em grupos, ligados por interesses comuns, e revezam-se na carne e no além, apoiando-se mutuamente, alguns empenhados em finalidades nobres, construtivas e reparadoras, e outros envolvidos, século após século, em lamentáveis e tenebrosas práticas de dominação e vingança, tortura, perseguição, infligindo sofrimentos atrozes aos infelizes que lhes caem sob o poder maligno e infeliz.

O conceito de Sir James Frazer, de que a magia baseia-se na simpatia, é válido. Em Espiritismo, diríamos que se trata de sintonia vibratória. Não que a magia tenha poderes por si mesma, pois ela não encontra ressonância e, por conseguinte, não alcança êxito junto àqueles que já se redimiram, ou que, pelo menos, acham-se defendidos pela prece, pela vigilância e pela prática da caridade, no serviço ao próximo.

Por mais de uma vez temos tido experiências com processos de magia, em trabalhos de esclarecimento mediúnico. Magos do passado, que continuando no Além seus estudos e práticas, comparecem, excepcionalmente, aos trabalhos de desobsessão nos quais se acham envolvidos, pois não gostam de descobrir-se. Entre eles encontramos até ex-sacerdotes católicos que, em tempos idos, praticaram a magia e, revertidos ao mundo espiritual, retomaram suas experiências.

À visão espiritual de nossos médiuns apresentavam-se com as vestimentas e os simbolos de sua preferência, ou portando “objetos”, poções, signos, velas, substâncias e até acompanhados de acoólitos, para servi-los.

Um deles trouxe-nos — certamente para intimidar-nos — um pobre ser espiritual inteiramente dominado, reduzido a uma deplorável condição subumana de pavor e deformação perispiritual. Nosso médium viu-o atirar esse pobre espírito, de rastros, num círculo magnético infernal, do qual a infeliz vítima não podia livrar-se, por mais que se debatesse. Era um exemplo para nós, a fim de que deixássemos de interferir em sua atividade, disse ele.

Outro veio traçar signos e fazer invocações contra um de nós, especificamente. Tinha recebido uma solicitação, selada com sangue, num terreiro. Não podia deixar de atender ao “irmão de sangue”. Depois de seu ritual, cumprido à nossa vista, declarou que sua vítima “estava amarrada”, e partiu.

Mais tarde manifestou-se outro de sua equipe — ou seria ele mesmo? — com a proposta de “desfazer” o trabalho. E repetia, incessantemente:

— Quer que vire, eu viro. -. Quer que vire, eu viro…

Não; não queríamos que ele virasse, com o que ele ficou muito desapontado, pois obviamente teria sido muito mais fácil, para ele, alcançar seus objetivos ocultos e lamentáveis, se aquele a quem ele visava propusesse um “pacto”, que entregaria a ele sua vítima, de pés e mãos atados, pronta para o “serviço”. Vendo-se recusado, passou para outro médium, no mesmo grupo, e apresentou-se agora com outro nome, embora reclamando que seu “cavalo” não prestava, porque não o obedecia. Tinha diante de si um prato de sangue, com o qual pretendia alcançar-nos.

De outra vez, um desses visitantes sinistros deixou sobre a mesa, segundo relato de um de nossos videntes, pequenas caveiras com as órbitas iluminadas por uma baça luz vermelha. Uma para cada um de nós.

Acontece, porém, que, empenhado em trabalhos redentores, o grupo dispõe de proteção e ajuda de companheiros redimidos, também antigos magos, profundos conhecedores desses trabalhos, sempre presentes para contraporem seus conhecimentos e recursos às desesperadas tentativas desses irmãos, agarrados ainda ao lado escuro da vida, tentando dominar pelo terror. Um desses companheiros infelizes confessou que via ao nosso lado quem, melhor do que ele, conhecia os segredos de sua arte e a neutralizava. Mais do que isso: por processos que não se revelaram aos nossos sentidos, o mago foi completamente desarmado em suas táticas, tão cuidadosamente planejadas. Nosso médium viu apenas que, em torno dele, colocaram sete lâmpadas, ou lanternas, de cores diferentes.

Um caso marcou época, pela sua extraordinária sofisticação. O mago era realmente profundo conhecedor de sua arte e engendrou um mecanismo magnético, através do qual mantinha, subjugadas aos seus propósitos, as mentes de quatro seres encarnados.

Em suma, a magia é mais comum do que desejaríamos admitir, e oferece riscos realmente sérios, contra os quais os grupos mediúnicos têm que estar muito bem preparados e assistidos. É claro que ela age apenas quando e onde encontra as necessárias brechas e o condicionamento da culpa, da falta, do erro, que nos sintoniza com o mal e nos expõe à aproximação dos implacáveis cobradores das trevas.

Os magos desencarnados são, as mais das vezes, inteligentes, experimentados e conhecedores profundos das mazelas e fraquezàs humanas, pois vivem disso, nas suas práticas funestas. Não se detêm diante de nenhum escrúpulo, não temem represálias, são pouco acessíveis à doutrinação, ao apelo do amor e do perdão. Sabem, como todo Espírito envolvido nas sombras das suas paixões inferiores, que somente estarão protegidos da dor enquanto mantiverem em torno de si mesmos aquele clima de terror. Atacam para nao serem atacados, oprimem para não serem oprimidos, espalham a dor para fugirem às suas próprias. Sabem muito bem que no dia em que “fraquejarem”, ou seja, aceitarem a realidade maior, que muito bem conhecem, chegará o duro momento da verdade e começará a longa escalada de volta. E quem desceu semeando sofrimentos, só pode contar com sofrimentos durante a subida. Não há outro caminho. Por isso são implacáveis e, por -isso, demoram-se no erro que, paradoxalmente, os compromete cada vez mais. Estão perfeitamente conscientes, no entanto, de que um dia — não importa quando — terão fatalmente que enfrentar a realidade de si mesmos, pois o mal não é eterno.

Magnetizadores e Hipnotizadores

São amplamente utilizados, nos processos obsessivos, os métodos da hipnose e do magnetismo, que contam, no Além, com profundos conhecedores e hábeis experimentadores dessas técnicas de indução, tanto entre os Espíritos esclarecidos e despertos para as verdades maiores, como entre aqueles que ainda se debatem nas sombras de suas paixões.

Lá, como entre os encarnados, os métodos são os mesmos. Para incumbências de importância secundária, basta uma indução superficial, mas para os procedimentos mais elaborados, os hipnotizadores do espaço utilizam-se de recursos extremamente sofisticados.

“… nos atos mais complexos do Espírito — ensina André Luiz, em “Mecanismos da Mediunidade” —, para que haja sintonia nas ações que envolvam compromisso moral, é imprescindível que a onda do hipnotizador se case perfeitamente à onda do hipnotizado, com plena identidade de tendências ou opiniões, qual se estivessem iungidos, moralmente, um ao outro, nos recessos da afinidade profunda.

É claro, pois, que nisto, como em quase toda a problemática espiritual, vamos encontrar o mesmo dispositivo da sintonia vibratória. Os Espíritos superiores utilizam-se da hipnose para socorrer, para ajudar, para aliviar, para corrigir desvios. Os desajustados, para dominar e punir.

Em “Memórias de um Suicida”, o autor espiritual oferece exemplos desses trabalhos redentores, em que espíritos altamente credenciados, competentes e moralizados, movimentam, com enorme respeito e carinho, os arquivos da mente, por métodos hipnóticos e magnéticos.

— O aparelhamento que vedes — explica um dos instrutores —, harmonizado em substâncias extraídas dos raios solares — cujo magnetismo exercerá a influência do ímã —, é uma espécie de termômetro ou máquina fotográfica, com que costumamos medir, reproduzir e movimentar os pensamentos… as recordações, os atos passados que se imprimiram nos refolhos psíquicos da mente e que, pela ação magnética, ressurgem, como por encanto, dos escombros da memória profunda de nossos discípulos, para impressionarem a placa e se tornarem visíveis como a própria realidade que foi vivida!…

Desdobra-se ali um processo de regressão irresistível, como recurso extremo para desalojar realidades soterradas na memória profunda do ser e que precisam ser trazidas à tona para desencadear o mecanismo da recuperação.

Mas, como todo recurso do conhecimento humano, este também é neutro, isto é, tanto pode ser usado para ajudar a levantar o ser que caiu, como para fazer cair aquele que está de pé.

“Defino a sugestão, no seu sentido mais lato — escreve Bernheim, em “Hypnotisme et Suggestion” —, como o ato pelo qual uma idéia é despertada no cérebro e aceita por ele.”

Passando por sobre a conotação materialista da definição proposta, pois a sugestão é transmitida ao Espírito, e não ao cérebro, vemos que há uma condição básica, que é a da aceitação pelo “sujet”. Para esta aceitação, que instaura o processo do domínio, é preciso que hipnotizador e hipnotizado estejam “jungidos moralmente um ao outro, nos recessos da afinidade profunda”, como diz André Luiz.

Alguns magnetizadores e hipnotizadores adotam o procedimento de segurar os polegares de seus “sujets”, por algum tempo, antes de iniciarem o trabalho propriamente dito. Com isto se afinizam com ele (ou ela), num intercâmbio vibratório, que os coloca em condições de ajustarem-se fluídicamente.

Seja qual for, porém, o processo — e não podemos aqui fazer estudo mais profundo e extenso do fenômeno — os hipnotizadores e magnetizadores das trevas acabam por alcançar o domínio de suas vítimas depois de obterem a aceitação de que nos fala Bemheim, mesmo que forçada. Para isso, manipulam com extrema habilidade os dispositivos da culpa e da cobrança, ou seja, a própria lei de causa e efeito. O Espírito culpado, convencido dessa culpabilidade, cede e entrega-se.

Temos presenciado alguns casos dramáticos, nesse campo. Já lembramos, algures neste livro, aquele companheiro desencarnado que, mesmo depois de resgatado e posto a salvo da faixa vibratória de seu hipnotizador, recaiu sob seu domínio, por causa de sua própria invigilância.

Mesmo incorporado ao médium, este irmão não se furtava com facilidade à terrível influência de seu perseguidor que, em nossa presença, tentava induzi-lo a arrastar toda a sua família, ainda encarnada, à desencarnação, sugerindo-lhe idéias de ódio, vingança e morte. O pobre irmão repetia incessantemente:

E assim por diante, sem parar, pois não apenas a sugestão se lhe ia implantando cada vez mais na vontade, como ainda, falando continuamente, ele era impedido de ouvir as observações do doutrinador. Com um esforço muito grande, por meio de passes de dispersão, de preces e de contra-sugestões, foi possível libertá-lo, pelo menos para uma trégua. Parou, exausto, com o médium coberto de suor, respiração opressa e acelerada, e pediu a ajuda de Deus, pois conseguíramos que ele dissesse que amava a mãe e não que a odiava.

Com freqüéncia, também, os hipnotizadores procuram atuar sobre os membros encarnados do grupo, lançando as bases de induções preliminares, a serem desenvolvidas depois, durante o desprendimento do sono, ou mesmo durante a vigília. Não é nada fácil lidar com esses terríveis manipuladores da mente humana. Nada os detém e, para eles, tudo é válido, desde que alcancem os resultados que desejam.

As vezes, os companheiros que assistem o grupo, do lado da luz, interferem de maneira sutil, mas eficaz. Certa vez, um Espírito atormentado e, certamente, hábil magnetizador, pretendeu usar comigo a sua técnica. Pediu-me a mão. Coloquei-a na frente de seus olhos e lhe disse:

— Pode pegar.

Ele hesitou um instante e depois agarrou-a fortemente, sem que eu apertasse a sua: mantinha minha mão estendida, com os dedos unidos. Algo então aconteceu de estranho e curioso. Através da minha mão, ele recebeu uma espécie de choque elétrico, evidentemente uma descarga magnética, que o atingiu na altura do plexo cardíaco. Talvez algo temeroso, pensou em retirar logo a sua mão e não o conseguia! Embora ele é que segurasse a minha mão, e não eu a dele, e por mais esforço que fizesse, inclusive com a outra mão tentando desprender seus dedos, só a muito custo libertou-se do laço magnético. Isto o impressionou de tal forma que, da próxima vez que compareceu, começou a chamar-me, com ironia, por certo, mas evidentemente também com respeito, de “o homem da mão” …

Outro que tentava me dominar por meio de passes magnéticos, tinha atrás de si, segundo nos informou, depois da sessão, o próprio médium que o recebeu — um dos nossos queridos companheiros, profundo conhecedor do assunto, que neutralizava todo o seu trabalho junto a mim.

Certa ocasião, um irmão transviado, que estava sendo atendido, também se utilizava de processos de magnetismo e magia contra o grupo. Trouxera os seus instrumentos e as substâncias necessárias. A certa altura, percebeu a presença daqueles que nos defendiam, utilizando-se, para o bem, de técnica superior à dele. Como que pensando alto, ele nos dizia que sabia o que os nossos amigos estavam fazendo, mas nada podia contra eles.

Procedimentos magnéticos são também usados para reduzir seres gravemente endívidados a condições de extrema e aviltante deformação perispiritual, como casos de zoantropia, sobre os quais já falei neste livro. E é pela magnetização (passes) positiva que se torna possível restituir-lhes a condição normal.

— “Temos aqui — escreve André Luiz, em “Libertação” —a génese dos fenômenos de licantropia, inextricáveis, ainda, para a investigação dos médicos encarnados. Lembras-te de Nabucodonosor, o rei poderoso a que se refere a Bíblia? Conta-nos o Livro Sagrado que ele viveu, sentindo-se animal, durante sete anos. O hipnotismo é tão velho quanto o mundo e é recurso empregado pelos bons e pelos maus, tomando-se por base, acima de tudo, os elementos plásticos do perispírito.”

Mulheres

O trabalho mediúnico oferece insuspeitadas condições de aprendizado. Cada sessão traz as suas surpresas; cada manifestação suas lições e ensinamentos. A contínua observação desse vaivém de companheiros desencarnados, o desfile trágico de problemas, angústias, dores e ódios, a força irresistível do amor, as maravilhas da prece, o poder do passe, constituem experiência inesquecível para aqueles que, ao longo dos anos, entregam-se a essas tarefas redentoras.

Uma pergunta poderá ser colocada agora. Que papel represen­tam as mulheres, nesses dramas que se desenrolam entre os dois mundos? Há mulheres obsessoras? Há mulheres que se vingam, que perseguem, que odeiam? Sim, mas em número bem mais reduzido que os homens.

O Espiritismo ensina que o Espírito não tem sexo, podendo encarnar-se como homem ou como mulher, em diferentes existências, mas que costuma escolher, preferentemente, um ou outro sexo, renascendo continuamente como homem ou mulher.

“Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem encarnasse só saberia o que sabem os homens.”

Dessa forma, não são muito precisas as expressões Espírito feminino e Espírito masculino, que são usadas à falta de outras. A questão é bem mais complexa do que parece à superfície.

Certa vez, perguntei a um amigo espiritual por que difere tanto, na sua estrutura psíquica, o Espírito encarnado como homem, daquele que se encarna como mulher. O homem é mais agressivo, dado a gestos de coragem física, menos sentimental, ao passo que a mulher inclina-se mais à compassividade, à renúncia, ao recato, sendo, portanto, mais acessível à emoção e aos sentimentos. Por que isso, se, não tendo sexo, os Espíritos deveriam ser assemelhados?

Disse-me ele, coerente com os postulados doutrinários, que, como Espíritos, conservam características em comum, mas, ao se reencarnarem, aceitam condições que lhes facultam desenvolvimen­to de certas faculdades, em detrimento de outras; ou melhor, optam pelo aprimoramento de alguns aspectos espirituais em que estejam particularmente interessados.

Assim é, realmente. Como a perfeição deverá resultar, um dia, do desenvolvimento harmonioso de todas as faculdades possíveis ao ser humano, é natural que este tenha que ir por etapas, cultivando-as em buques, até que, alcançando o ponto desejado, possa encetar outras realizações.

Tentemos, não obstante, ampliar um pouco mais a questão, na esperança de alcançar uma visão mais clara de suas dificuldades. Ao responderem à pergunta formulada por Kardec (Têm sexos os Espíritos?), os instrutores informaram o seguinte:

“Não como o entendeis, pois que os sexos dependem da organização. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na concordância dos sentimentos.”

Certamente que sentiram, esses instrutores, que não era tempo, ainda, de aprofundar mais a questão, mas disseram o bastante para compreendermos alguns pontos essenciais. De fato, a Doutrina nos ensina, alhures, que o ser encarnado resulta de um “arranjo” entre três componentes distintos: espírito, perispírito e corpo físico. Ao declararem que o sexo depende da organização, deixaram bem entendido que a diferenciação sexual não alcança o núcleo da individualidade, representado pelo Espírito imortal, pois fica contida nos limites extremos da organização perispiritual.

Por outro lado, Emmanuel informa, em resposta à pergunta número 30: “Há órgãos no corpo espiritual?”, que sim, pois o corpo físico “e uma exteriorização aproximada do corpo perispiritual”, e prossegue acrescentando que tal exteriorização “subordina -se aos imperativos da matéria mais grosseira, no mecanismo das heranças celulares, as quais, por sua vez, se enquadram nas indispensáveis provações ou testemunhos de cada individuo”.

Essa interdependência entre corpo físico e perispírito é acentuada por André Luiz ao declarar que:

“Os cromossomos, estruturados em grânulos infinitesimais de natureza fisiopsicossomática, partilham do corpo físico pelo núcleo da célula em que se mantêm, e do corpo espiritual pelo citoplasma em que se implantam.”

É bastante compreensível, pois, que os seres que trazem o perispírito ainda espesso, regressem ao mundo póstumo, pela desencarnação, com uma pesada carga fluídica, profundamente impregnada de materialidade e, por conseguinte, de sensações e necessidades bem semelhantes às que experimentava na carne.

Isto é confirmado pelos relatos mediúnicos, sendo a série André Luiz bastante rica em informações desse tipo. Para não alongar demais esta digressão, sugiro a releitura do capítulo 99 de “Nosso Lar”, sob o título “Problema da alimentação”.

Informa Lísias que, há cerca de um século, a questão alimentar era muito séria ali na colônia. Muitos dos recém-chegados da carne “duplicavam exigências”. Queriam mesas lautas, bebidas excitantes, “dilatando velhos vícios terrenos”. Quando a direção da colônia tomou providências mais enérgicas para coibir os abusos, estabeleceu-se um comércio clandestino com os representantes das trevas que, agindo, como sempre, através das brechas que as nossas paixões inferiores lhes abrem, utilizavam-se desse lamentável intercâmbio como instrumento de infiltração e assalto à vasta organização regeneradora intitulada “Nosso Lar”.

Foram implantadas severas medidas de correção e reajuste, mas os alimentos não foram totalmente abolidos, em virtude da condição perispiritual, ainda bastante densa, da grande maioria dos que habitam aquela colônia.

No capítulo 18 dessa mesma obra, Laura informa que:

— “Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Há residências, em “Nosso Lar”, que as dispensam quase por completo; mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as circunstâncias impõem. Despendemos grande quantidade de energias. É necessário renovar provisões de força.”

Portanto, a alimentação com substâncias concentradas é ainda indispensável, mesmo para aqueles Espíritos mais esclarecidos, que se entregam a tarefas redentoras, ainda que mais humildes.

Assim, da mesma forma que os problemas alimentares, os de sexo não ficam totalmente eliminados por um passe de mágica, simplesmente porque se deu a desencarnação. Espíritos enredados nas tramas da sensualidade, tombam em situações calamitosas no mundo póstumo. Somente os mais purificados conseguem libertar-se dos apelos da carne.

— “Entre os casais mais espiritualizados — informa Laura a André —, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a realização transitória.”

“Inútil é supor — diz um elevado instrutor — que a morte física ofereça solução pacífica aos espíritos em extremo desequilíbrio, que entregam o corpo aos desregramentos passionais.

A loucura, em que se debatem, não procede de simples modificações do cérebro: dimana da desassociação dos centros perispiriticos, o que exige longos períodos de reparação.” E, mais adiante:

“Convictos desta realidade universal (a aquisição gradativa das virtudes) não podemos esquecer que nenhuma exteriorização do instinto sexual na Terra, qualquer que seja sua forma de expressão, será destruida, senão transmudada no estado de sublimação.”

Não resta dúvida, portanto, do estudo doutrinário e das observações colhidas, por Espíritos credenciados, no imenso laboratório da vida, que o sexo persiste no mundo póstumo, até que seja sublimado. A sublimação há de marchar, por isso, junto com a sutilização progressiva do Espírito, pois que, chegado à condição de pureza, o sexo será, para o Espírito, apenas a lembrança de uma experiência valiosa que, entre outras, lhe serviu de degrau para a sua escalada.

Retomando, porém, nossas perguntas iniciais, poderemos responder que, infelizmente, Espíritos que passaram por experiências no sexo feminino também odeiam, perseguem, obsidiam. Alguns são mesmo particularmente agressivos, rancorosos e violentos. É que; levando para o Além as suas frustrações, seus desvios, suas ânsias, recaem, fatalmente, em faixas desarmonizadas, onde se consorciam com outros seres igualmente desarvorados, para darem prosseguimento ao exercício das paixões incontroladas. Nesse estado, continuam mulheres, sentindo e agindo como tais. Exercem seus poderes de sedução sobre outros seres, ganham “vestimentas”, “jóias”, “sapatos” e “perfumes”, a troco de favores. Prestam serviços tenebrosos junto a companheiros encarnados, mancomunados aos seus comparsas das sombras, que lhes asseguram uma “boa vida” de prazeres e proteção contra a dor que as espera fatalmente, para o reencontro, um dia, lá na frente.

De outras vezes, são escravizadas, reduzidas à condição mais abjeta, e seviciadas, perambulando, dementadas, em andrajos imundos, por vales de sombras espessas, até que, desgastadas pelo sofrimento, tenham um impulso de arrependimento que lhes possibilite o socorro de que tanto necessitam.

Temos tido algumas experiências com espíritos femininos. Já lembrei, noutro ponto deste livro, o caso da irmã que se empenhava em perturbar uma família, tentando destruir um lar, para o que contava com o apoio de um sacerdote desencarnado, que a incentivava, e a isentava de culpa, “absolvendo-a”, provavelmente no confessionário, da responsabilidade, sob a alegação de que, em encarnação anterior, ela também fora traída.

Tivemos o caso de uma jovem que se suicidara por uma paixão desvairada, numa antiga encarnação na Escócia, quando aquele a quem amava abandonou-a, grávida e na vergonha. Localizando-o como encarnado, perseguia-o, tentando — e conseguindo — induzi-lo a erros bastante sérios.

Outra — fora irmã de caridade — atormentava uma criatura encarnada, em cumprimento a “ordens superiores”.

Vimos, também, aquela pobre companheira, teleguiada por hábeis indutores, que transviava um homem encarnado e era recom­pensada com festas, vestidos bonitos e prazeres.

Em certa oportunidade compareceu uma bem mais difícil. Já há algum tempo vinha tentando induzir um dos componentes do grupo a uma atitude extremamente arriscada. O caso era apresentado de maneira sutil, inteligente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Seria apenas a antecipação do que, segundo o Espírito, estava já programado para mais tarde. Não haveria culpa alguma, portanto. Era “físicamente” simpática, apresentava-se bem vestida, unhas muito polidas, sorridente, educada, cordial.

Várias vezes tentou influenciar o nosso companheiro, apresentando-se ante seus olhos espirituais, ou durante o desdobramento do sono natural. Finalmente, comparece aos nossos trabalhos mediúnicos.

Ri-se, muito divertida da situação. Tem a voz suave, envolvente e doce. Diz-se muito bela, elegante, esguia, bem-cuidada. Conta casos, sorri, faz gestos graciosos e parece imensamente segura de si mesma. Trata-me com condescendência e superioridade. Informa que “trabalha” junto a casais e que seu objetivo é libertar a mulher, para que todas sejam como ela, felizes e livres para gozar a vida, sem preconceitos. De vez em quando, pára a exposição para rir, pois deixa entrever que se decepcionou profundamente comigo. Conhecia-me apenas de nome e a realidade não confere com a imagem que formulou a respeito da minha aparência. Acha-me, provavelmente, feio, desengonçado e ridículo. Diz que no mundo em que vive é muito poderosa, porque é a favorita. Ainda muito condescendente, aconselha-me, como amiga, a juntar minhas coisas e partir enquanto é tempo, pois não tenho a menor idéia do que estou fazendo e onde estou me metendo. Esquiva-se habilmente às perguntas, muito segura, inteligente e tranqüila. Quando lhe formulo questão mais complexa, desculpa-se, dizendo que é uma mulher e não é dada à Filosofia.

Do mundo espiritual, sugerem-me que lhe pergunte por que fugiu de um certo castelo inglês. Ela continua a negacear, mas se mostra visivelmente transtornada. Por fim, perde a calma, abandona a atitude de inconseqüente e superior condescendência, e ordena-me autoritariamente que me sente, o que não quero fazer, para permanecer junto do médium que a recebe.

É chegado o momento de começar realmente o processo de doutrinação. Até aqui — o trabalho todo durou cerca de uma hora — o tempo foi aplicado em tatear a sua personalidade e os seus problemas, a fim de obter informações. Agora, já dispomos de alguns elementos mais concretos. Digo-lhe, de início, que sua beleza física, de que tanto se orgulha, é mera criação de sua mente, mas ela está bem preparada para o confronto. Pede um espelho, para me provar que não tenho razão. Nesse ponto, não obstante, vê junto dela um Espírito de aparência agressiva e pejado de vibrações desarmonizadas. É um antigo esposo, de quem ela matou todos os filhos recém-nascidos e os enterrou no jardim. Não queria filhos, porque eles “deformam o corpo”. Está igualmente preparada para esse encontro. Na organização em que vive, como favorita de um poderoso líder das trevas, tudo aquilo lhe fora mostrado em retrospecto, por meio de imagens vivas, em filme, para que ela pudesse, numa emergência como esta, suportar a lembrança das suas próprias atrocidades, sem se perturbar e perder o “equilíbrio”. Agora, enquanto revê as cenas, está aparentemente segura e continua a rir-se de tudo, dizendo que não adianta mostrar-lhe nada. A despeito do seu preparo, no entanto, não resiste muito tempo e entra em crise dolorosa, a pobre e querida irmã. Seu ex-marido incorpora-se em outro médiuni e atira-lhe impropérios, entre dentes, chamando-a de assassina. Diz-lhe que está à sua espera e ri, de prazer insano, ante o desespero em que ela se precipita. Dirijo a ele algumas palavras, tentando acalmá-lo, e me volto para ela, para ajudá-la a enfrentar o seu problema, as suas recordações e, principalmente, o seu futuro. Ela me responde em perfeito inglês:

– 1º burned all the bridges behind me. (Queimei todas as pontes por que passei.)

Respondo-lhe que tentou também queimar as pontes para o futuro e, por isso, se sente prisioneira numa ilha sinistra. É uma longa e penosa agonia! Sente as mãos sujas de sangue, detesta aquele vestido vermelho, que não consegue trocar, e começa a temer o momento fatal em que terá de deixar o médium para enfrentar a nova realidade que se pastou diante dela subitamente, mas, por certo, não inesperadamente. Elà pressente as dores que a esperam, pois muitas vezes deve ter presenciado esse momento dramático, em outros Espíritos endívidados. De repente, começa nela um fulminante processo de envelhecimento, ao mesmo tempo em que suas roupas apresentam-se sujas e em frangalhos. Ela ainda consegue dizer que seu ventre secou e, por fim, desprende-se com enorme sofrimento para o médium, que ficou com os resíduos da sua profunda e dolorosa angústia.

Poucas semanas depois deste caso, tivemos outra manifestação de Espírito feminino. Também é das que se dizem atraentes e sedutoras, estando, obviamente, empenhada em fascinar criaturas encarnadas e desencarnadas, a serviço dos seus mandantes. Vai logo dizendo, muito sorridente, que não venha com as minhas conversas macias. Ainda se fossem outras conversas… diz, maliciosamente. Declara-se muito sutil e por isso é destacada para missões delicadas. Teria descoberto que o pobre doutrinador é muito amado e teve o desejo de conhecê-lo pessoalmente; no entanto, mal pode esconder seu desapontamento. Presa aos seus condicionamentos, esperava, por certo, que eu fosse jovem e belo, e não um desenxabido senhor de cabeça a branquear. Digo-lhe que realmente sou um velho sem graça e quando lhe pergunto se ela é jovem, responde corretamente que o Espírito não tem idade. A uma outra pergunta minha, declara que vive no céu, pois o céu é um estado de espírito e ela é muito feliz. A conversa prolonga-se aparentemente sem rumo, mas é a fase em que são colhidas as informações de que necessitamos para o trabalho real de doutrinação.

Depois de reunidos os elementos que me parecem suficientes, proponho-me a orar. Ela protesta, alegando que eu oro demais e, mal me levanto, ela se debruça sobre a mesa, em pranto, numa crise emocionante, dolorosa. Sinto por ela uma infinita e paternal ternura e lhe falo com muito carinho. Ela deixa cair todas as guardas e me conta que é uma infeliz: foi explorada pelos homens aqui, na carne, e continua a ser explorada do lado de lá. Vive num verdadeiro campo de concentração, com outras criaturas infelizes. Enquanto “ela” estava lá — refere-se, como depois apuramos, à irmã atendida semanas antes e que descobrimos ter sido uma duquesa — foi protegida; depois, não. Havia sido incumbida de uma tarefa, junto à esposa de alguém que estávamos interessados em ajudar; mas, ao chegar junto a essa pobre senhora, viu-a em pranto, a chorar às escondidas. Teve pena dela e ficou sem coragem de executar friamente o seu mandato.

São essas algumas experiências com Espíritos ditos femininos. As vezes, elas são obsessoras implacáveis, tão violentas e agressivas como os homens, tão irracionais quanto eles, nas suas paixões e no desejo insaciável de vingança; mas são estatisticamente em número reduzido, em relação aos Espíritos masculinos e, decididamente, mais abertas ao entendimento e predispostas ao despertamento, porque mais sensíveis ao apelo da ternura, da emoção, do respeito à sua condição feminina, ainda que estejam transitoriamente numa posição de aviltamento, ou, talvez, por isso mesmo. Ao sentirem que são tratadas como seres humanos, reagem como seres humanos, respondendo, mais cedo ou mais tarde, às vibrações da nossa afeição.

O  mais comum, porém, em trabalhos mediúnicos, é encontrar mulheres que vêm recolher nos seus braços amorosos os companheiros recém-despertos. São velhos e seculares amores: mães, esposas, filhas, irmãs, que guardaram ternuras profundas, alimentadas em esperanças que nunca se apagaram, nem mesmo esmoreceram. Comparecem, às vezes, ainda enoveladas, elas próprias, em resgates dolorosos, mas quase sempre já mais avançadas no caminho da pacificação. Algumas encontram-se de há muito revestidas de luz e harmonia. Um destes casos, intensamente dramático, está relatado por André Luiz, em “Libertação”. Matilde desce aos subterrâneos da dor, para resgatar o seu amado Gregório, que se transviara lamentavelmente, e é com o seu amor apenas — e é tudo! — que enfrenta a sua cólera, numa cena inesquecível.

Extraído do Livro:
Dialogo com as Sombras – Hermínio Correa de Miranda

Leitura complementar:

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