O RÉPROBO E A COVARDIA
Em geral aqueles que se atiram ao suicídio, para sempre esperam livrar-se de  sofrimentos e problemas considerados insolúveis, muitas vezes, da vergonha, do descrédito ou da desonra, dos remorsos deprimentes. Também eu assim pensava,  acreditava piamente. Enganei-me, porém; e lutas infinitamente mais vivas e mais ríspidas esperavam-me dentro do túmulo.

As primeiras horas que se seguiram ao gesto brutal de que usei, passaram-se sem que  eu pudesse dar conta de mim. Meu Espírito, rudemente violentado, como que desmaiara, sofrendo ignóbil colapso. Os sentidos, as faculdades que traduzem o “eu” racional, paralisaram-se como se indescritível cataclismo houvesse desbaratado o mundo, prevalecendo, porém, acima dos destroços. Fora como se aquele tiro maldito, que até hoje ecoa sinistramente em minha cabeça, tivesse desintegrado todas as moléculas de que meu ser é constituído!

A linguagem humana ainda não inventou vocábulos bastante justos e compreensíveis para definir as impressões absolutamente inconcebíveis, que passam a contaminar o “eu” de um suicida logo às primeiras horas que se seguem ao desastre, porque está fora de suas possibilidades de criatura que  se conservou aquém dessa anormalidade. Para entendê-la e medir com precisão a intensidade dessa dramática surpresa, só outro Espírito cujas faculdades se houvessem queimado na mesma dor, pode compreender!

Nessas primeiras horas, se não representassem apenas o prelúdio da diabólica sinfonia que será constrangido a interpretar pelas disposições lógicas das leis naturais que violou, o suicida, semi-inconsciente, adormentado, desacordado, se lhe obscureça de todo a percepção dos sentidos, sente-se contundido, nulo, dispersado em seus milhões de filamentos psíquicos violentamente atingidos pelo trágico acontecimento.

Paradoxos turbilhonam em volta dele, perde-se no vácuo… Ignora-se…Não obstante aterra-se, acovarda-se, sente a profundidade apavorante do erro cometido, deprime- se na aniquiladora certeza de que ultrapassou os limites das ações que lhe eram permitidas pela Razão! É o traumatismo psíquico, o choque nefasto que o dilacerou, e o qual, para ser minorado, dele exigirá um roteiro de urzes e lágrimas, decênios de rijos testemunhos até que se reconduza às vias naturais do progresso, interrompidas pelo ato arbitrário e contraproducente.

Pouco a pouco, senti ressuscitando das sombras confusas em que mergulhei, após a queda do corpo físico. Senti-me enregelar de frio. Tiritava! Impressão incômoda, de que vestes de gelo que me apegavam ao corpo, provocou-me terrível mal-estar. Faltava-me, o ar, o que me levou a crer que, mais uma vez que eu desejara roubar a  vida, que a morte se aproximava com seu cortejo de sintomas dilacerantes.

Odores fétidos e nauseabundos,  revoltavam-me brutalmente o olfato. Uma dor aguda, violenta, enlouquecedora, arremeteu-se instantaneamente sobre meu corpo localizando-se particularmente no cérebro. Presa de convulsões, de dor física, levei a mão ao ouvido direito: – o sangue corria do orifício causado pelo projétil da arma de fogo de que me servira para o suicídio e manchou-me a palma, as vestes, o corpo… Eu nada enxergava.

Convém recordar que meu suicídio derivou-se da revolta por me encontrar cego, expiação que considerei superior às minhas forças. Injusta  punição da natureza de Deus.

Sentia-me, pois, ainda cego; e, para cúmulo do meu estado de desorientação, encontrava-me ferido. Tão somente ferido e não morto! Porque a vida continuava em mim como antes do suicídio!

Passei a reunir idéias. Revi minha vida em retrospecto, até à infância, e sem mesmo omitir o drama do último ato. Sentindo-me vivo, averiguei, conseqüentemente, que o ferimento que em mim mesmo fizera, tentando matar-me, fora insuficiente, aumentando assim os já tão grandes sofrimentos que desde longo tempo me vinham perseguindo. Supus-me preso a um leito de hospital. Mas a impossibilidade de reconhecer o local; os incômodos que me afligiam, a solidão me rodeava,  enquanto lúgubres pressentimentos me avisavam de que acontecimentos irremediáveis se haviam confirmado. Bradei por meus familiares, amigos. O mais surpreendente silêncio enervava-me. Indaguei mal-humorado por enfermeiros, que possivelmente me atenderiam, dado que me não encontrasse em minha residência e sim retido em algum hospital; por serviçais, criados, fosse quem fosse, para abrir as janelas do aposento onde me supunha recolhido; que me trouxessem cobertas quentes, que  acendessem a lareira, suplicava, alimento, água, porque eu tinha fome e sede!

Com espanto, em vez das respostas, minha audição distinguiu, foi um vozerio ensurdecedor, que, indeciso e longínquo a princípio, definiu-se gradativamente até positivar-se em pormenores concludentes. Era um coro sinistro, de muitas vozes confundidas em atropelos, desnorteadas, como aconteceria numa assembléia de loucos.
No entanto, estas vozes não falavam entre si, não conversavam. Blasfemavam, queixavam-se de múltiplas desventuras, lamentavam-se, reclamavam, uivavam, gritavam enfurecidas, gemiam, estertoravam, choravam desoladoramente, derramando pranto hediondo, pelo tom de desesperação com que se particularizava; suplicavam, raivosas, socorro e compaixão! Aterrado senti que estranhos puxões, com arrepios irresistíveis, transmitiam-me influenciações abomináveis, provindas desse todo que se revelava através da audição, estabelecendo corrente similar entre meu ser e aqueles cujo vozerio eu distinguia. Esse coro, rigorosamente observado e medido em seus intervalos, infundiu-me tão grande terror que, reunindo todas as forças de que poderia o meu Espírito dispor, movimentei-me no intuito de afastar-me de onde me encontrava para local em que não mais o ouvisse

Tateando nas trevas tentei caminhar. Mas dir-se-ia que raízes vigorosas plantavam-me naquele lugar úmido e gelado em que me deparava. Não podia despegar-me! Eram cadeias pesadas que me escravizavam, raízes cheias de seiva, que me tinham grilhetado naquele extraordinário leito por mim desconhecido, impossibilitando-me o  afastamento. Aliás, como fugir se estava ferido, desfazendo-me em hemorragias internas, manchadas as vestes de sangue, e cego. Como apresentar-me ao público em tão repugnante estado?…

A covardia – a mesma hidra que me atraíra para o abismo em que agora me encontrava – alongou ainda mais seus tentáculos insaciáveis e colheu-me irremediavelmente! Esqueci-me de que era um homem, ainda uma segunda vez! e que cumpria lutar para tentar vitória, fosse a que preço fosse! Reduzi-me por isso à miséria do vencido! E, considerando insolúvel a situação, entreguei-me às lágrimas e chorei angustiosamente, ignorando o que tentar para meu socorro. Mas, enquanto me desfazia em prantos, o coro de loucos, sempre o mesmo, trágico, fúnebre, regular como o pêndulo de um relógio, acompanhava-me com singular similitude, atraindo-me como se emanado de irresistíveis afinidades… Insisti no desejo de me furtar à terrível audição.

Após esforços desesperados, levantei-me. Meu corpo enregelado, os músculos retesados por entorpecimento geral, dificultavam-me os movimentos. Todavia, levantei-me. Ao fazê-lo, porém, cheiro penetrante de sangue e vísceras putrefatos reacendeu em torno, repugnando-me até às náuseas. Partia do local exato em que eu estivera dormindo. Não compreendia como poderia cheirar tão mal o leito onde me achava. Para mim seria o mesmo que me acolhia todas as noites! No entanto, que de odores fétidos me surpreendiam agora! Atribui o fato ao ferimento que fizera na intenção de matar-me, a fim de explicar-me de algum modo a estranha aflição, ao sangue que corria, manchando-me as vestes.

Realmente! Eu me encontrava empastado de peçonha, como um lodo asqueroso que dessorasse de meu próprio corpo, empapando a vestimenta que usava, pois, com surpresa, surpreendi-me trajando cerimoniosamente, não obstante retido num leito de dor. Mas, ao mesmo tempo que assim me apresentava, confundia-me de como poderia assim ser, visto não ser cabível que um simples ferimento, mesmo a quantidade de sangue derramado, pudesse tresandar tanta podridão, sem que meus amigos e enfermeiros deixassem de providenciar a devida higienização.

Inquieto, tateei na escuridão com o intuito de encontrar a porta de saída que me era habitual, já que todos me abandonaram. Tropecei, porém, em dado momento, num montão de destroços e, instintivamente, curvei-me para o chão, a examinar do que se tratava. Então, repentinamente, a loucura irremediável apoderou-se de minhas faculdades e entrei a gritar e uivar qual demônio enfurecido, respondendo na mesma dramática tonalidade à macabra sinfonia cujo coro de vozes não cessava de perseguir minha audição, em intermitências de angustiante expectativa.

O montão de escombros era nada menos do que a terra de uma cova recentemente fechada! Não sei como, estando cego, pude ver, em meio as sombras que me rodeavam, e o que existia em torno! Eu me encontrava num cemitério! Os túmulos, com suas tristes cruzes em mármore branco ou madeira negra, ladeando imagens sugestivas de anjos pensativos. A confusão cresceu: – Por que me encontraria ali? Como viera, pois nenhuma lembrança me acorria?… E o que viera fazer sozinho, ferido, dolorido, extenuado?… Era verdade que “tentara” o suicídio, mas… Sussurro macabro, qual sugestão irremovível da Consciência esclarecendo a memória aturdida pelo ineditismo presenciado, percutiu estrondosamente pelos recôncavos alarmados do meu ser: “Não quiseste o suicídio?… Pois taí…” Mas, como assim?… Como poderia ser… se eu não morrera?!… Acaso não me sentia ali vivo?… Por que então sozinho, imerso na solidão tétrica da morada dos mortos?!… Os fatos irremediáveis, porém, impõem-se aos homens como aos Espíritos com majestosa naturalidade. Não concluíra ainda minhas ingênuas e dramáticas interrogações, e vejo-me, a mim próprio! como à frente de um espelho, morto, estirado num ataúde, em franco estado de decomposição, morto dentro de uma sepultura, justamente aquela sobre a qual acabava de tropeçar!

Fugi espavorido, desejoso de ocultar-me de mim mesmo, obsidiado pelo mais tenebroso horror, enquanto gargalhadas estrondosas, de indivíduos que eu não via, explodiam atrás de mim e o coro nefasto perseguia meus ouvidos torturados, para onde quer que me refugiasse. Como louco que realmente me tornara, eu corria, corria, enquanto aos meus olhos cegos se desenhava a hediondez satânica do meu próprio cadáver apodrecendo no túmulo, empastado de lama gordurosa, coberto de asquerosos vermes que, vorazes, lutavam por saciar sua fome.

Quis furtar-me à presença de mim mesmo, procurando incidir no ato que me desgraçara, reproduzi a cena patética do meu suicídio mentalmente, como se por uma segunda vez buscasse morrer a fim de desaparecer na região do que, na minha ignorância dos fatos de além-morte, eu supunha o eterno esquecimento! Mas nada era capaz de aplacar a terrível visão! Ela era, antes, verdadeira! Imagem perfeita da realidade que sobre o meu físico espiritual se refletia, e por isso me acompanhava para onde quer que eu fosse!

Na fuga precipitada que empreendi, ia entrando em todas as portas que encontrava abertas, a fim de ocultar-me em alguma parte. Mas qualquer domicílio que me abrigasse, na insensatez da loucura que me enredava, era enxotado a pedradas sem poder distinguir quem, com tanto desrespeito, assim me tratava. Vagava pelas ruas tateando aqui e ali, tropeçando, na mesma cidade onde meu nome era endeusado como o de um gênio. A respeito dos acontecimentos que com minha pessoa se relacionavam, ouvi comentários destilados em críticas mordazes e irreverentes, ou repassados de pesar sincero pelo meu trespasse, que lamentavam.

Voltei a minha casa. Surpreendente desordem estabelecera-se em meus aposentos, atingindo objetos de uso pessoal, meus livros, manuscritos e apontamentos, os quais já não eram por mim encontrados no local costumeiro, o que muito me enfureceu. Dir-se-ia que se dispersara tudo! Encontrei-me estranho em minha própria casa! Procurei amigos, parentes a quem me afeiçoara. A indiferença que lhes surpreendi em torno da minha desgraça chocou-me dolorosamente, agravando meu estado de excitação. Dirigi-me então a consultórios médicos. Tentei fixar-me em hospitais, pois que sofria, sentia febre e loucura, supremo mal-estar torturava meu ser, reduzindo-me a desolador estado de humilhação e amargura. Mas, a toda parte que me dirigia, sentia-me não socorrido, negavam-me atenções, despreocupados e indiferentes todos ante minha situação. Em vão objurgatórias azedas saíam de meus lábios acompanhadas da apresentação, por mim próprio feita, do meu estado e das qualidades pessoais que meu incorrigível orgulho reputava irresistíveis: – pareciam alheios às minhas insistentes súplicas, ninguém me concedia sequer um olhar!

Aflito, sofrido, alucinado, absorvido pelas ondas de amarguras, em parte alguma encontrava possibilidade de estabilizar-me a fim de lograr conforto e alívio! Faltava-me alguma coisa irremediável, sentia-me incompleto! Eu perdera algo que me deixava assim, entonteado, e essa “coisa” que eu perdera, parte de mim mesmo, atraía-me sempre para o local em que se encontrava! E tal atração que sobre mim exercia, tal o vácuo que em mim produzira esse irreparável acontecimento, tão profunda a afinidade, verdadeiramente vital, que a essa “coisa” me unia – que, não sendo possível, de forma alguma, fixar-me em nenhum local para que me voltasse, voltei ao sítio tenebroso de onde viera: – o cemitério!

Debrucei-me, soluçante e inconsolável, sobre a sepultura que me guardava os míseros despojos corporais, e estorci-me em apavorantes convulsões de dor e de raiva, rebolcando-me em crises de furor diabólico, compreendendo que me suicidara, que estava sepultado, mas que, não obstante, continuava vivo e sofrendo mais, muito mais do que sofria antes, superlativamente, monstruosamente mais do que antes do gesto covarde e impensado!

Cerca de dois meses vaguei desnorteado, em atribulado estado de incompreensão. Ligado ao fardo carnal que apodrecia, viviam em mim todas as necessidades do físico humano, amargura que, aliada aos demais incômodos, me levava a constantes estado de desespero. Revoltas, blasfêmias, crises de furor, como se o próprio inferno soprasse sobre mim suas inspirações, assim coroando as vibrações maléficas que me circulavam de trevas. Via fantasmas perambulando pelas ruas do campo santo, não obstante minha cegueira, chorosos e aflitos, e, por vezes, terrores inconcebíveis sacudiam-me o corpo a tal ponto que me reduziam a singular estado de desmaio, como se, sem forças para continuar vivendo!

Desesperado em face do extraordinário problema, entregava-me cada vez mais ao desejo de suicidar, de fugir de mim mesmo, a fim de não mais viver, incapaz de raciocinar que, na verdade, o corpo físico, fora realmente aniquilado pelo suicídio; e que agora eu sentia confundir-se com ele, porque solidamente a ele unido por leis naturais de afinidade que o suicídio absolutamente não destrói, era o físico-espiritual, indestrutível e imortal, organização viva, semi-material, fadada a elevados destinos, a porvir glorioso no seio do progresso infindável, relicário onde se arquivam, qual o cofre que encerrasse valores, nossos sentimentos e atos, nossas realizações e pensamentos, envoltório que é da centelha sublime que rege o homem, isto é, a Alma eterna e imortal como Aquele que de Si Mesmo a criou!

Certa vez em que ia e vinha, tateando pelas ruas, irreconhecível a amigos e admiradores, pobre cego humilhado no além-túmulo graças à desonra de um suicídio; mendigo na sociedade espiritual, faminto na miséria de Luz em que me debatia; angustiado fantasma vagabundo, sem lar, sem abrigo no mundo imenso, no mundo infinito dos Espíritos; exposto aos perigos deploráveis, que também lá existe;  perseguido por entidades perversas, bandoleiros, malfeitores de toda ordem, ao dobrar uma esquina deparei-me com certa multidão, cerca de duzentos indivíduos de ambos os sexos. Era noite. Pelo menos eu assim o supunha, pois, como sempre, as trevas envolviam o lugar, percebia as pessoas dentro da escuridão, como se enxergasse mais pela percepção do que mesmo pela visão. Aliás, eu me considerava cego, ainda, mas não explicava como, podia ter a capacidade de enxergar, ao passo que não a possuía sequer para reconhecer a luz do Sol e o azul do céu! Essa multidão, entretanto, era a mesma que vinha gritando em coro sinistro que me aterrava, tendo-a eu reconhecido porque, no momento em que nos encontramos, entrou a uivar desesperadamente, atirando aos céus blasfêmias indecifráveis!

Tentei recuar, fugir, apavorado por me tornar dela conhecido. Porém, porque marchasse em sentido contrário ao que eu seguia, depressa me envolveu, misturando-me ao seu todo para absorver-me completamente em suas garras! Fui levado de roldão, empurrado, arrastado; e tal era a aglomeração que me perdi totalmente em suas dobras. Apenas me inteirava de um fato, porque isso mesmo ouvia rosnarem ao redor, e era que estávamos todos rodeados por soldados, os quais nos conduziam. A multidão acabava de ser aprisionada! A cada momento juntava-se, outro e outro vagabundo, como acontecera comigo, e que do mesmo modo não mais poderiam sair. Dir-se-ia que aquele esquadrão completo de milicianos montados conduzia-nos à prisão. Ouviam-se as patadas dos cavalos sobre a laje das ruas e lanças afiadas luziam na escuridão, impondo terror.

Protestei contra a violência. Em altas vozes bradei que não era criminoso e dei-me a conhecer, enumerando meus títulos e qualidades. Mas os cavaleiros, se me ouviam, não se dignavam responder. Silenciosos, mudos, eretos, marchavam em suas montarias fechando-nos em círculo intransponível! A frente o comandante, abrindo caminho dentre as trevas, empunhava um bastão no alto do qual flutuava pequena flâmula, onde se via uma inscrição. Porém eram tão acentuadas as sombras que não poderia lê-la.

A caminhada foi longa. O frio cortava-nos os ossos. Misturei minhas lágrimas e meus brados de dor e desespero ao coro horripilante da turba e participei da atroz sinfonia de blasfêmias e lamentações. Pressentíamos que bem seguros estávamos, que jamais poderíamos escapar! Tocados vagarosamente, sem que uma única letra lográssemos arrancar dos nossos algozes, começamos, finalmente, a caminhar penosamente por um vale profundo, onde nos vimos obrigados a enfileirar-nos de dois a dois, enquanto faziam idêntica manobra os nossos vigilantes.

Cavernas surgiram de um lado e outro das ruas que se diriam antes estreitas gargantas entre montanhas abruptas e sombrias. Tratava-se, certamente, de um estranho  povoado, uma cidade em que as habitações seriam cavernas, dada a miséria de seus habitantes, os quais não possuiriam cacife suficientes para torná-las agradáveis e facilmente habitáveis. O que era certo, porém, é que tudo ali estava por fazer e que seria bem aquela a habitação exata da Desgraça! Não se distinguiria terreno, senão pedras, lamaçais e pântanos, sombras  e aguaceiros…

Penetráva-mos cada vez mais naquele abismo… Seguíamos, seguíamos… E, finalmente, no centro de uma grande praça encharcada qual um pântano, os cavaleiros fizeram alto. Com eles estacou a multidão. Em meio ao silêncio que repentinamente se estabeleceu, vimos que o pelotão voltava-se sobre seus próprios passos a fim de retirar-se. Com efeito! Um a um os soldados se afastavam nas curvas tortuosas das vielas lamacentas, abandonando-nos ali naquele lugar que mais parecia uma sucursal do inferno, se não o próprio inferno. Confusos e atemorizados seguimos no seu encalço, ansiosos por nos afastarmos também. Mas foi em vão! As ruelas, as cavernas e os pântanos se sucediam, embaralhando-se num labirinto em que nos perdíamos, pois, para onde nos dirigíssemos, sempre o mesmo cenário e a mesma topografia. Inconcebível terror apossou-se da estranha turba. Por minha vez, não poderia sequer pensar ou refletir, procurando solução para aquela situação. Sentia-me como que envolvido nos tentáculos de um horrível pesadelo, e, quanto maiores esforços tentava para explicar-me o que se passava, menos compreendia os acontecimentos e mais me confessava no assombro esmagador!

Meus companheiros eram hediondos, como hediondos também se mostravam os demais desgraçados que nesse vale maldito encontráramos, os quais nos receberam entre lágrimas e estertores idênticos aos nossos. Feios, deixando ver fisionomias alarmadas de terror; esquálidos, desfigurados pela intensidade dos sofrimentos; desalinhados, inconcebivelmente trágicos, seriam irreconhecíveis por aqueles mesmos que os amassem, aos quais repugnariam! Pus-me a bradar desesperadamente, acometido de odiosa fobia do Pavor. Um homem normal não seria capaz de avaliar o que entrei a padecer desde que me capacitei de que o que via não era um pesadelo! Não! Eu não era um alcoólatra! Não era um prostituído! Não era um fumante! Mas ali estava a pungente realidade que todos os infernos pudessem inventar – a realidade maldita, assombrosa, feroz e aterrorizante! – criada por uma falange de réprobos do suicídio aprisionada no meio cabível ao seu estado!

Sim! Imaginai uma assembléia numerosa de criaturas disformes – homens e mulheres – caracterizada pela alucinação de cada uma, correspondente aos casos íntimos, trajando, todos, vestes como que empastadas do lodo das sepulturas, com feições alteradas e doloridas estampando os estigmas de sofrimentos cruciantes! Imaginai uma localidade, um povoado envolvido em densos véus de penumbra, gélida e asfixiante, onde se aglomerassem habitantes de além-túmulo abatidos pelo suicídio, ostentando, cada um, o ferrete infame do gênero de morte escolhido! Pois era assim a multidão de criaturas que meus olhos assombrados deparavam nas trevas que lhes eram favoráveis ao terrível gênero de percepção!

Eu via aqui, ali, estes que um dia foram homens e mulheres de bem, pais e mães de família, nas garras do enforcamento, esforçando-se, com gestos altamente apavorantes, tentando livrarem o pescoço, intumescido e violado, das cordas que o levaram a descer naquelas paragens! Outros, indo e vindo como loucos, em correrias espantosas, bradando por socorro em gritos estentóricos, envolvidos em chamas, apavorando-se com o fogo que lhes devorava o corpo físico e que, desde então, ardia sem tréguas nas trevas daquele lugar que se chamava povoado.

Eis que apareciam outros ainda com peito, ou o ouvido, ou a garganta jorrando sangue, oh! Deus! Incluindo eu. Sangue inalterável, permanente, que nada conseguia verdadeiramente fazer para desaparecer das sutilezas do físico-espiritual, a tentarem estancar aquele sangue jorrante, ora com as mãos, ora com as vestes ou outra qualquer coisa que supunham ao alcance, sem no entanto jamais o conseguirem! A presença destes desgraçados impressionava até à loucura, dada a inconcebível dramaticidade dos gestos isócronos, inalteráveis, a que, mau grado próprio, se viam forçados!

Entretanto, bem próximo ao local em que me encurralara procurando refugiar-me da turba sinistra, destacava-se, por fealdade impressionante, meia dúzia de desgraçados que haviam procurado o mesmo lugar, atirando-se sob as rodas de um trem de ferro. Trazendo os perispíritos desfigurados, dir-se-iam a armadura de monstruosa aberração, as vestes em farrapos esvoaçantes, cobertos de cicatrizes sanguinolentas, retalhadas, confusas, num emaranhado de golpes e sobre golpes, tal se fotografada fora, naquela placa sensível e sutil, isto é, o perispírito, a deplorável condição a que o suicídio lhes reduzira o envoltório carnal – esse templo, ó meu Deus, que o Divino Mestre recomenda como veículo precioso e eficiente para nos auxiliar na caminhada em busca das gloriosas conquistas espirituais!

Enlouquecidos por sofrimentos, da suprema aflição que atingir possa a alma originada da centelha divina, representando aos olhos pávidos do observador que o Invisível inferior mantém de mais trágico, mais emocionante e horrível, esses desgraçados uivavam em lamentações tão dramáticas e impressionantes que imediatamente contagiavam com suas influenciações dolorosas quem quer que se encontrasse indefenso em seu caminho, o qual entraria a co-participar da loucura inconsolável de que se acompanhavam… pois o terrível gênero de suicídio, dos mais deploráveis que temos a registrar em nossas páginas, abalara-lhes tão violenta e profundamente a organização nervosa e sensibilidades gerais do corpo astral, congêneres daquela que traumatizara a todas, entorpecendo, graças à brutalidade usada, até mesmo os valores da inteligência, que, por isso mesmo, jazia incapaz de orientar-se, dispersa e confusa em meio do caos que se formara ao redor de si!

Cada um de nós, no Vale Sinistro, vibrando violentamente e retendo com as forças mentais o momento atroz em que nos suicidamos, criávamos os cenários e respectivas cenas que vivêramos em nossos derradeiros momentos de homens terrestres. Tais cenas, refletidas ao redor de cada um, levavam a confusão à localidade, espalhavam tragédia e inferno por toda a parte, seviciando de aflições superlativas os desgraçados prisioneiros. Assim era que se deparavam, aqui e ali, forcas erguidas, baloiçando o corpo do próprio suicida, que evocava a hora em que se precipitara na morte voluntária. Veículos variados, assim como comboios fumegantes e rápidos, colhiam e trituravam, sob suas rodas, míseros tresloucados que buscaram matar o próprio corpo por esse meio execrável, os quais, agora, com a mente “impregnada” do momento sinistro, retratavam sem cessar o episódio, pondo à visão dos companheiros afins suas hediondas recordações.

Rios caudalosos e mesmo trechos alongados de oceano surgiam repentinamente no meio daquelas vielas sombrias: – era meia dúzia de réprobos que passava enlouquecida, deixando à mostra cenas de afogamento!… Homens e mulheres transitavam desesperados: uns ensanguentados, outros estorcendo-se no suplício das dores pelo envenenamento, e, o que era pior, deixando à mostra as entranhas  corroídas pelo veneno, enquanto outros mais, incendiados, a gritarem por socorro em correrias insensatas, traziam pânico ainda maior entre os companheiros de desgraça, os quais receavam queimar-se ao seu contacto, todos possuídos de loucura coletiva! E coroando a profundeza e intensidade desses inimagináveis martírios – as penas morais: os remorsos, as saudades dos seres amados, que ficaram na terra, dos quais  não se  tinham notícias, os mesmos dissabores que haviam dado causa ao desespero e que persistiam em afligir!… E as penas físico-materiais: – a fome, o frio, a sede, exigências fisiológicas em geral, torturantes, irritantes, desesperadoras! a fadiga, a insônia depressora, a fraqueza! Necessidades imperiosas, desconforto de toda espécie, insolúveis, a desafiarem possibilidades de suavização – oh! a visão insidiosa e inelutável do cadáver apodrecendo, seus fétidos asquerosos, a repercussão, na mente excitada, dos vermes a consumirem o lodo carnal, fazendo que o desgraçado mártir se supusesse igualmente atacado de podridão!

Coisa singular! Essa escória trazia, pendente de si, fragmentos de cordão luminoso, fosforescente, o qual, despedaçado, como arrebentado violentamente, desprendia-se em estilhaços qual um cabo compacto de fios elétricos arrebentados, a desprenderem fluidos que deveriam permanecer organizados para determinado fim. Ora, esse pormenor, aparentemente insignificante, tinha, ao contrário, importância capital, pois era justamente nele que se estabelecia a desorganização do estado de suicida. Hoje sabemos que esse cordão fluídico-magnético, que liga o espírito ao corpo físico e lhe comunica a vida, somente deverá estar em condições apropriadas para deste separar- se por ocasião da morte natural, o que então se fará naturalmente, sem choques, sem violência. Com o suicídio, porém, uma vez partido e não desligado, rudemente arrancado, despedaçado quando ainda em toda a sua pujança fluídica e magnética, produzirá grande parte dos desequilíbrios, senão todos que vimos anotando, uma vez que, na constituição vital para a existência que deveria ser, muitas vezes, longa, a reserva de forças magnéticas não se haviam extinguido ainda, o que leva o suicida a sentir-se um “mortovivo” na mais expressiva significação do termo. Mas, na ocasião em que pela primeira vez o notáramos, desconhecíamos o fato natural, afigurando-se- nos um motivo a mais para confusões e terrores.

Tão deplorável estado de coisas, para a compreensão do qual o homem não possui vocabulário nem imagens adequadas, prolonga-se até que as reservas de forças vitais e magnéticas se esgotem, o que varia segundo o grau de vitalidade de cada um. O próprio caráter individual influi na prolongação do estado, quando o padecente for mais ou menos afeito às atrações dos sentidos materiais, grosseiros e inferiores. É pois um complexo que se estabelece, que só o tempo, com extensa cauda de sofrimentos, conseguirá corrigir. Um dia, profundo alquebramento sucedeu em meu ser a prolongada excitação. Fraqueza insólita conservou-me aquietado, como desfalecido. Eu e muitos outros cômpares de minha falange estávamos extenuados, incapazes de resistirmos por mais tempo a tão desesperadora situação. Urgência de repouso fazia-nos desmaiar freqüentemente, obrigando-nos ao recolhimento em nossas desconfortáveis cavernas. Não se tinham passado, porém, sequer vinte e quatro horas desde que o novo estado nos surpreendera, quando mais uma vez fomos alarmados.

Eu compartilhava o mesmo antro residencial de quatro outros indivíduos, como eu portugueses, e, no decorrer do longo martírio em comum, tornáramos-nos inseparáveis, à força de sofrermos juntos no mesmo tugúrio de dor. Dentre todos, porém, um sobremaneira me irritava, predispondo-me à discussão, com o usar, apesar da situação precária, o monóculo inseparável, o fraque bem talhado e respectiva bengala de castão de ouro, conjunto que, para o meu conceito neurastênico e impertinente, o tornava pedante e antipático, num local onde se vivia torturado com odores fétidos e podridão e em que nossa indumentária dir-se-ia empastada de estranhas substâncias gordurosas, reflexos mentais da podridão elaborada em torno do envoltório carnal. Eu, porém, esquecia-me de que continuava a usar o “pince-nez” com seu fio de torçal, a sobrecasaca dos dias cerimoniosos, os bigodes fartos penteados… Confesso que, então, apesar da longa convivência, lhes não conhecia os nomes. No Vale Sinistro a desgraça é ardente demais para que se preocupe com a identidade alheia.

O conhecido rumor aproximava-se cada vez mais… Saímos de um salto para a rua… Vielas e praças encheram-se de réprobos como das passadas vezes, ao mesmo tempo que os mesmos angustiosos brados de socorro ecoavam pelas quebradas sombrias, no intuito de despertarem a atenção dos que vinham para a costumeira vistoria… Até que, dentro da atmosfera densa e penumbrosa, surgiram os carros brancos, rompendo as trevas com poderosos holofotes. Estacionou o trem caravaneiro na praça lamacenta. Desceu um pelotão de soldados. Em seguida, damas e cavalheiros, que pareciam enfermeiros, e mais o chefe da expedição, o qual  se particularizava por usar turbante e túnica hindus. Silenciosos e discretos iniciaram o reconhecimento daqueles que seriam socorridos. Uma voz austera que se diria,  vibrar no ar, fez, pacientemente, a chamada dos que deveriam ser recolhidos, os quais, ouvindo os próprios nomes, se apresentavam por si mesmos. Outros, porém, por não se apresentarem a tempo, impunham aos socorristas a necessidade de procurá-los. Mas a estranha voz indicava o lugar exato em que estariam os míseros, dizendo simplesmente: Abrigo número tal… Rua número tal… Ou, conforme a circunstância: – Dementado… Inconsciente… Não se encontra no abrigo… Vagando em tal rua… Não atenderá pelo nome… Reconhecível por esta ou aquela particularidade… Dir-se-ia que alguém, de muito longe, assestava poderosos telescópios até nossas desgraçadas moradas, para assim informar detalhadamente do momento decorrente a expedição laboriosa…

Os obreiros da Fraternidade consultavam um mapa, iam rapidamente ao local indicado e traziam os mencionados, alguns carregados em seus braços generosos, outros em macas… De súbito ressoou na atmosfera dramática daquele inferno onde tanto padeci, repercutindo estrondosamente pelos mais profundos recôncavos do meu ser, o meu nome, chamado para a libertação! Em seguida, ouviram-se os dos quatro companheiros que comigo se achavam presentes na praça. Foi então que lhes conheci os nomes e eles o meu.

Disse a voz longínqua, como servindo-se de desconhecido e poderoso alto-falante: – Abrigo número 36 da rua número 48 – Atenção!… Abrigo número 36 – Ingressar no comboio de socorro – Atenção!… – Camilo Cândido Botelho – Belarmino de Queiroz e Souza – Jerônimo de Araújo Silveira – João d’Azevedo – Mário Sobral – Ingressarem no comboio…

Perdoar-me-á o leitor o não transcrever na integra os nomes destas personagens, tal como foram revelados pelo autor destas páginas. – Foi entre lágrimas de emoção indefinível que galguei os pequenos degraus da plataforma que um enfermeiro indicava, atencioso e paciente, enquanto os policiais fechavam cerco em torno de mim e de meus quatro companheiros, evitando que os desgraçados que ainda ficavam subissem conosco ou nos arrastassem no seu turbilhão, criando a confusão e retardando por isso mesmo o regresso da expedição. Entrei.

Eram carros amplos, cômodos, confortáveis, cujas poltronas individuais como que estofados em couro branco apresentavam o espaldar voltado para os respiradores, que dir-se-iam os óculos das modernas aeronaves terrenas. Ao centro quatro poltronas em feitio idêntico, onde se acomodaram enfermeiros, tudo indicando que ali permaneciam a fim de guardar-nos. Nas portas de entrada lia-se a legenda entrevista antes, na flâmula empunhada pelo comandante do pelotão de guardas: Legião dos Servos de Maria. Dentro em pouco a tarefa dos abnegados legionário estava cumprida. Ouviu-se no interior o tilintar abafado de uma campainha, seguido de movimento rápido de suspensão de pontes de acesso e embarque dos obreiros. Pelo menos foi essa a série de imagens mentais que concebi… O estranho comboio oscilou sem que nenhuma sensação de galeio e o mais leve balanço impressionassem nossa sensibilidade. Não contivemos as lágrimas, porém, em ouvindo o ensurdecedor coro de blasfêmias, a gritaria desesperada e selvagem dos desgraçados que ficavam, por quanto tempo ainda não se sabe, não suficientemente desmaterializados para atingirem camadas invisíveis menos compactas. Eram senhoras que nos acompanhavam, por nós velando durante a viagem. Falaram-nos com doçura, convidando-nos ao repouso.

Acomodaram-nos cuidadosamente nas almofadas das poltronas, quais desveladas, bondosas irmãs de Caridade…Afastava-se o veículo… A pouco e pouco a cerração de trevas se ia dissipando aos nossos olhos torturados, por durante tantos anos, não sei dizer quantos, dez, vinte, trinta, já não importa mais… pela mais cruciante das cegueiras: – a da consciência culpada! Apressava-se a marcha… O nevoeiro de sombras ficava para trás como um pesadelo maldito que se extinguisse ao despertar de um penoso sono… Agora as estradas eram amplas e retas, a se perderem de vista… A atmosfera fazia-se branca como neve… Ventos fertilizantes sopravam, alegrando o ar… Oh! Deus Misericordioso!… Havíamos deixado o Vale Sinistro dos Suicidas!… para sempre… ficara ele, perdido nas trevas do abominável!… Lá ficara, incrustado nos abismos invisíveis criados pelo pecado dos homens, a fustigar a alma daquele que se esqueceu de Deus, o Criador! Comovido e pávido, pude, então, elevar o pensamento à Fonte Imortal do Bem Eterno, para humildemente agradecer a grande graça que recebia!

 

 

 

 

Fonte: “Memórias de um suicida”
Yvonne do Amaral Pereira
Pelo espírito Camilo Cândido Botelho

 

 

 

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Em geral aqueles que se atiram ao suicídio, para sempre esperam livrar-se de  sofrimentos e problemas considerados insolúveis, muitas vezes, da vergonha, do descrédito ou da desonra, dos remorsos deprimentes. Também eu assim pensava,  acreditava piamente. Enganei-me, porém; e lutas infinitamente mais vivas e mais ríspidas esperavam-me dentro do...